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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O nome da cousa

Talvez um dia nos encontremos na rua e eu aceite a sua mão estendida e seu abraço caloroso. Talvez, então, você me mostre a foto do seu filho e eu comente que ele é lindo. Talvez, talvez, nos sentemos naquele boteco e possamos rir das nossas trepadas, e relembremos os velhos-bons-tempos-que-não-voltam-mais. Talvez eu chore um pouco de saudades daquela época e relembre o nome de todo mundo da turma, e possamos listar quem criou barriga, quem tem emprego público, quem come a cunhada, quem embichou. Talvez só as boas recordações me assaltem. Pode ser que, então, eu já tenha esquecido as dores, que as mágoas sejam só lembranças e que seu rosto não me assombre mais. Talvez eu já não chore mais debaixo do chuveiro. Talvez eu passe a mão pelo seu rosto e meus olhos sorriam e nós possamos nos despedir prometendo contato, trocando e-mails e jurando encontros familiares em breve.

Talvez, algum dia. Hoje, não. Hoje, eu quero que você vá pra puta que o pariu.


Porque hoje é o aniversário dela. Minha companheira de todo o dia. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Fal

Nem vou falar nada. Na página 77:

Você será o fim da vida, tal e qual eu a conheço. A minha vida. E o que virá depois? Eu não sei, você não sabe. "Não há garantias", você diz. Então, não quero. Quero o certo, o cotidiano, o imutável, o previsto, o listado, o milimetricamente programado. Quero o que tenho certeza de que está no armário da cozinha, na terceira gaveta do guarda-roupa, no envelope dentro da pasta. Quero o estável, o sólido, a rocha. Quero um dia depois do outro, consultas marcadas com duas semanas de antecedência, nenhum abalo, nenhuma grande alegria, nenhuma grande dor. Quero o impossível.




sábado, 11 de outubro de 2014

Sempre ele

Fal estava me dizendo de um poema do Leminski que eu não lembrava. É esse aqui. Eu não lembro mais em qual livro está. Alguém? Só sei que ele sempre tem razão: de vez em quando a gente precisa morrer mesmo. E voltar melhor. 

"Já me matei faz muito tempo
Me matei quando o tempo era escasso
E o que havia entre o tempo e o espaço
Era o de sempre
Nunca mesmo o sempre passo

Morrer faz bem à vista e ao baço
Melhora o ritmo do pulso
E clareia a alma

Morrer de vez em quando
É a única coisa que me acalma."


domingo, 7 de setembro de 2014

Sonhei que a neve fervia.

Eu converso com ela há anos pelo computador. Anos mesmo. A gente se encontrou ao vivo depois de uns 6 ou 7 anos de íntima amizade. Nunca mais nos separamos. Trabalhamos juntas, construímos relações, conhecemos juntas tantas pessoas. Alguns amigos dela são hoje meus, alguns meus são dela. Ela vem aqui. Eu vou lá ficar com Baco e com Maliu. E todos os dias a gente se fala. E sabe onde a outra está e compartilha os tombos. E pequenas felicidades porque a gente ri bastante da vida e da nossa desgracinha de cada dia. E todos têm que ler este livro. Eu chorei, minha mãe queria conhecê-la de tão profundamente emotiva que ficou. E me emociono todos os dias, quando pego para ler um trechinho.



Da página 163:

"Não quero escrever os dias, os meses, as gerações que vão passando, embora adore escritores que o façam.


Eu quero o segundo.



O turning point, ou não, mas aquele momento.



Aquela gota, aquele drops de tempo, aqueles momentinhos, que juntos, fazem da sua vida isso que ela é, fazem de você isso que você é.



Porque, ao fim e ao cabo, é isso que somos todos. Momentos, segundos, gestos pequenos, pensamentos minúsculos, todos bem costuradinhos e macerados. É sobre isso, meu amigo, que eu quero falar."


Eu também. Eu também. Fal está lá no drops e eu sempre aqui.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sonhei


Palavras da Fal, na página 289:

"Não, eu definitivamente não quero discutir a relação, analisar as variáveis, reavaliar as estratégias, sondar o terreno, pedir uma segunda opinião, deixar a massa adrede preparada, controlar danos, ajustar expectativas, listar dados, fechar poros, conter despesas, partir para o ataque, poupar o mensageiro, abraçar minha criança interior, adotar uma tecnologia, aparar arestas, ouvir o outro lado, traçar rotas de fuga, vivenciar papéis, transar aquele lance, esperar 5 minutinhos, rever os conceitos, justificar as escolhas, passar um cafezinho, dominar os jargões, mudar os paradigmas, agir estrategicamente, agregar valor, inicializar um processo, respeitar os limites, instalar o equipamento, tentar só mais um pouquinho, ser uma boa menina."

Nem eu.

Leiam este livro, gente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sonhei que a neve fervia

A Fal é uma amiga. Uma amiga que conheci virtualmente há anos e que se tornou presente na vida. E nos encontramos, e vamos nos encontrar sempre e tudo mais. Ela agora é do elenco fixo da BK idiomas. Não é lindo? E leiam os livros da moça. Leiam. 


Um trecho:

"Tem horas que sim quer dizer não, que o tapete antiderrapante da cozinha escorrega, que o copo estava firme na sua mão, mas desliza e espatifa. Tem horas que o não quer dizer sim, que o salto prende no buraquinho da calçada (ao que tudo indica, eu me especializei em cair em caixas eletrônicos, craquelando mais e mais meu combalido joelho direito), que a gata branca não volta para casa nunca mais. E tem horas que o não quer dizer isso mesmo: não. Essas são as horas que mais doem."

Pois é.