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domingo, 24 de julho de 2016

Mais Riobaldo




Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sempre Grande Sertão

E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei - daí então acreditei. A pois, o que sempre não é assim?


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Diadorim

Voltando ao normal, no dia do meu aniversário, sempre com Grande Sertão:

"Mas Diadorim perseverou com os olhos tão abertos sem resguardo, eu mesmo um instante no encantado daquilo - num vem-vem de amor. Amor é assim - o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão!

Conferindo que nem vergonha eu tive. Não ter vergonha como homem, é fácil: dificultoso e bom era poder não se ter vergonha feito os bichos animais. O que não digo, o senhor verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o maior segredo?"


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Diadorim e Riobaldo. Riobaldo e Diadorim

Diadorim também, que dos claros rumos me dividia. Vinha a boa vingança, alegrias dele, se calando. Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que cozinhou quente demais. O demônio diz mil. Esse! Vige mas não rege... Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando? Mas, quem é que sabe como? Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera... Diadorim alegre, e eu não. Transato no meio da lua. Eu peguei aquela escuridão. E, de manhã, os pássaros, que bem-me-viam todo tal tempo. Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Oi, suindara! - linda cor...


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Diadorim e Riobaldo sempre

"Pois então: o meu nome, verdadeiro é Diadorim... Guarda este meu segredo. Sempre, quando sozinhos a gente estiver, é de Diadorim que você deve de me chamar, digo e peço, Riobaldo..."

Assim eu ouvi, era tão singular. Muito fiquei repetindo em minha mente as palavras, modo de me acostumar com aquilo. E ele me deu a mão. Daquela mão, eu recebia certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandeza. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos - logo eu disse:

-"Diadorim... Diadorim!" - com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava, gostava. Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção, toda a vida: eu terçando, garantindo, punindo por ele. Ao mais os olhos me perturbavam; mas sendo que não me enfraqueciam. Diadorim. Sol-se-pôr. 



domingo, 7 de junho de 2015

Grande Sertão

O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei, --  "Amanhã eu tiro..." - falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então, saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido roído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo.... O cabo - por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí está: Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...

Somemos, não ache que religião afraca. Senhor, ache o contrário. Visível que, aqueles outros tempos eu pintava - cré que o caroá levanta a flor. Eh, bom meu pasto... Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. 


Se há alguma livro em língua portuguesa mais mais do que esse, alguém me avisa.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Riobaldo

"Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de cumpadre meu Quelemém, doutrina dele de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar - o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? O que eu faço, que quero, muito curial! E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho!"




quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Com o preferido

Começo o ano com um dos favoritos, com um dos trechos que mais emociona. E como disse Paulo Mendes da Rocha (o arquiteto mesmo, falando sobre o Grande Sertão: essa obra é uma universidade toda). 

Eu dizendo que  Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...
Diadorim - nu de tudo. E ela disse:
- "A Deus dada. Pobrezinha..."
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor - e mercê peço: - mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d'arma, da coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer - mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuaia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos pra trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura.. E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
- "Meu amor!.."
Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.


Páginas 530 e 531.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Riobaldo e Diadorim

"Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos - vislumbre meu - que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor: Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa... Reforço o dizer: que era beleza e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança."


O entender da gente por si não alcança. Pois é.

domingo, 14 de outubro de 2012

Vou e volto

Vou, vou, vou e volto para Grande Sertão.

Trecho retirado das páginas 524/525:

"Como vou contar, e o senhor sentir em meu estado? O senhor sobrenasceu lá? O senhor mordeu aquilo? O senhor conheceu Diadorim, meu senhor?!... Ah, o senhor pensa que morte é choro e sofisma - terra funda e ossos quietos... O senhor havia de conceber alguém aurorear de todo amor e morrer como só para um."

Aí a gente lê de novo o sofrimento de Riobaldo. E pensa: quantos livros são capazes de despertar tudo isso na gente? Poucos, meus amigos, poucos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Grande sertão


Meu "Grande sertão" ficou fora das caixas (comecemos as interpretações, por favor). E o interessante é que as marcações que tenho dele foram feitas há quase 20 (ai) anos, quando estava na faculdade. Só uma obs: a maioria dos meus livros tem, nas suas respectivas primeiras páginas, meus trechos favoritos anotados por página. Então, é uma delícia voltar a folhear o livro e descobrir coisas interessantes que eu não lembrava mais. E que, na época, foi lido por uma Andréa bem diferente. Enfim, na página 278:

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza." 

Ai, Riobaldo.


domingo, 6 de novembro de 2011

Grande sertão: veredas



Estou preparando uma aula sobre turismo e literatura que darei para um grupo de professores na próxima sexta. É tudo muito bom. Tem tanta, mas tanta coisa pra falar. Falarei também de Grande Sertão. É sempre lindo. E relendo alguns trechos do livro, quase choro com:

"Deixei meu corpo querer Diadorim; minha alma? Eu tinha recordação do cheiro dele. Mesmo no escuro, assim, eu tinha aquele fino das feições, que eu não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da idéia. Diadorim - mesmo o bravo guerreiro - ele era para tanto carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume no pescoço: a lá, aonde se acabava e remansava a dureza do queixo, do rosto... Beleza - o que é? E o senhor me jure! Beleza, o formato do rosto de um: e que para outro pode ser decreto, é, para destino destinar... E eu tinha de gostar tramadamente assim, de Diadorim, e calar qualquer palavra. Ela fosse mulher, e à-alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão e no fazer - pegava, diminuía: ela no meio de meus braços!"

É para o destino destinar...

terça-feira, 3 de maio de 2011

@cantodosaber

Acompanho no twitter o @cantodosaber e sempre tem alguma coisa bonitinha pra gente ler. Como isto:

"Que arriscado e conturbante é a gente se tirar das solidões fortificadas."
Guimarães Rosa

domingo, 13 de março de 2011

Saudades de Riobaldo e Diadorim

Sempre volto para Guimarães Rosa. Talvez "Grande Sertão" seja meu livro brasileiro favorito. Será?

"Vi um sol de alegria tanta, nos olhos de Diadorim, até me apoquentou. Eu tinha ciúme? - "Riobaldo, tu vai ver como ele é!" - Diadorim exclamou, se abraçou comigo. Parecia uma criança pequena, naquela bela resumida satisfação. Como era que eu ia poder raivar com aquilo?"

Grande Sertão: Veredas. Página 215.

domingo, 28 de novembro de 2010

Grande Sertão

"A avaliar o de Diadorim, por igual, como mostrava - outros olhos - o arregalo de ciúmes. Aqui digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz".

Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa. Página 402 (da minha edição - 27, da Nova Fronteira).

segunda-feira, 22 de março de 2010

Diadorim

Página 327 do meu livro:

"Tanto que me vinha a vontade, se pudesse, nessa caminhada, eu carregava Diadorim, livre de tudo, nas minhas costas. Até, o que me alegrava, era uma fantasia, assim como se ele, por não sei que modo, percebesse meus cuidados, e no próprio sentir me agradecendo. O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de excogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso."

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Grande Sertão



Página 155 do meu livro. Edição de 1986. Todo bem cuidadinho. Anotado com minha letra da faculdade (de 1994, no caso). Ai como eu era CDF. E que delícia foi.

"Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase: e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa, o Alaripe, o Sesfredo. Ele não quis me escutar. Voltei da raiva.

Digo ao senhor: nem em Diadorim mesmo eu não firmava o pensar. Naqueles dias, então, eu não gostava dele? Em pardo. Gostava e não gostava. Sei, sei que, no meu, eu gostava, permanecente. Mas a natureza da gente é muito segundas e sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor"


Boa semana, queridos.

domingo, 5 de abril de 2009

Grande Sertão

"Nunca mais, até o derradeiro final, nunca mais eu vi o Reinaldo tão sereno, tão alegre. E foi ele mesmo, no cabo de três dias, quem me perguntou: - 'Riobaldo, nós somos amigos, de destino, fiel, amigos?' - 'Reinaldo, pois eu morro e vivo sendo amigo seu!' - eu respondi. Os afetos. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do mundo."

Grande Sertão: veredas. página 127.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Mais Grande Sertão

"Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu - como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim."

Guimarães Rosa, Grande sertão: Veredas. página 167.


Obs - Michelle, depois do comentário que você deixou fui procurar seu e-mail mas não tenho.....manda uma mensagem pra mim (no endereço do terra), please...