Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos riso e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.
Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava.)
Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.
Ah, como cansa querer ser marginal
Todos os dias.
Descansem, anjos meus. Tudo vem a tempo
No seu tempo. Também é bom ser simples.
É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta. Ser mãe. Se não puder ser pai.
Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem
Não cansa.
Tudo de bom que já foi dito sobre Walt Whitman e sua obra "Folhas da Relva" eu concordo. Por isso o nome deste humilde bloguinho que fala sobre literatura é uma homenagem ao grande poeta que, como disse Borges: "toma e não diz a ninguém a infinita decisão de ser todos os homens e escrever um livro que seja todos".
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segunda-feira, 18 de setembro de 2017
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Hilda Hilst
Dos "Primeiros Poemas", 1950.
XVII
Todos irão sempre contra ti
porque tens pureza.
Porque o agitado de tuas mãos
é quase nostálgico.
Porque teus olhos
ficarão abertos
para quem os viu
uma única vez.
Todos irão sempre contra ti
porque hás de querer
um munto novo e diferente.
Porque és estranho
e diferente para o nosso mundo.
És quase um louco
porque não dás atenção
a toda gente.
Dirão que és poeta.
Porque a poesia aparece nos teus gestos
como aparece fé na oração de um crente.
Amaste quase todas as mulheres.
Mas o amor agora é tão difícil.
Não existes para mim.
Mas agitado, febril,
quase doente, é vivo...
Vivo demais para viver conosco.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Hilda Hilst
XXXIII
Se te pronuncio
Retomo um Paraíso
Onde a luz se faz dor
e gelo a claridade.
Se te pronuncio
É esplendor a treva
E as sombras ao redor
São turquesas e sóis
Depois de um mar de perdas.
Vigio
Esta sonoridade dos avessos.
Que se desfaça o fascínio do poema
Que eu seja Esquecimento
E emudeça.
Cléberson: a gente gosta e entende de literatura sim.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Hilda Hilst
VII do "Cantares"
Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena,
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo veem aquela.
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