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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sophia

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu echo os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.
Intacta é a sua ausência
Como a estátua de um deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas.
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo.

Que ao longe,
Na mais longínqua praia,
Onde só haja espuma, sal e vento,
Ele se perca, tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento.

E que ninguém repita o seu nome proibido.



quarta-feira, 11 de março de 2015

A menina do mar

Livro lindo, relançado agora pela Cosac.

E no comecinho:

"Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas."



sábado, 23 de agosto de 2014

No teu deserto

Este blog está virando, praticamente, um blog de literatura portuguesa. Acho lindo. 



Eu li este livro no ano passado. É um livro curto e maravilhoso. E acredito que cada um de nós tem uma história parecida pra contar (é só trocar o deserto por outro local). Leiam e entendam o porquê disso. Aliás, é só aproveitar a Bienal do Livro e ir lá comprar. Miguel Sousa Tavares é filho de Sophia. Essa mesmo. 

Vejam que coisa:

Depois disso, voltei onze vezes ao Sahara. Nunca como contigo, nunca tão fundo, tão longe, tão perdidamente. Mas voltei, porque o deserto tornou-se quase um vício e a minha íntima religião, o único divino a que prestava contas e onde me reencontrava. E, de cada vez que voltei, pensei em ti e pensei como seria bom, incrivelmente bom, voltar contigo. Nessas alturas, como nas outras, eu repetia a mim mesmo: "Não há regresso. Há viagens sem regresso nem repetição". 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Prece


Sophia de Mello Breyner Andresen. Sempre Sophia.

"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mãos


"Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender."

Boa semana, amigos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sophia


Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
 - Sílaba por sílaba - 
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de Mello Breyner Andresen. Preciso ler mais coisas desta mulher. Simples assim.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Sophia


Porque


"Porque os outros mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."

Sabe aquela coisa de abrir o livro em qualquer página e ver o que rola? Pois é. Cada coisa.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sophia



Para começarmos bem a semana: Sophia.

"LIBERDADE
O poema é
A liberdade


Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba

O poema emerge
- Como se os deuses o dessem

O fazemos"

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sophia



Cada vez que leio os poemas de Sophia descubro algo interessante. Já li e reli este livro aqui acima. Mas é cada coisa.

"CATILINA
Eu sou o solitário e nunca minto.

Rasguei toda a vaidade tira a tira

E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.


De tudo desligado, livre sinto

Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.


Sou a seta lançada em pleno espaço

E tenho de cumprir o meu impluso,
Sou aquele que venho e logo passo.


E o coração batendo no meu pulso

Despedaçou a forma do meu braço

Pra além do nó de angústia mais convulso."

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pátria



Para começarmos com poesia o mês de junho, estrofes finais do poema "Pátria" de Sophia de Mello Breyner:

"E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo"

sexta-feira, 15 de abril de 2011

25 de abril

O nome do poema é este acima, mas mesmo sendo hoje dia 15, resolvi colocar aqui:

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen.

domingo, 20 de março de 2011

Que nada nos separe

"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa"

Sophia de Mello Breyner.

Que a semana seja ótima, e que nada nos separe, nem nos emudeça.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sobre poesia

Trecho de Arte Poética II

"Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão."

Sophia de Mello Breyner.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sophia



Regressarei


Eu regressarei ao poema como à patria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

Sophia de Mello Breyner. Poemas escolhidos. Página 241.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Melhores de 2010

Sem dúvida, o livro de poesias da Sophia de Mello Breyner foi uma das melhores coisas do ano. Aqui, um trecho de POEMA

"A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento"

Boa última semana do ano a todos os 6 leitores...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sophia

Uma das coisas mais lindas que já li:

"Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos.

Mas as coisas têm máscaras e véus que me enganam, e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho."

Sophia de Mello Breyner Andresen. Poemas Escolhidos. Companhia das Letras.

As coisas definitivamente têm máscaras e véus.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Ânimo



Vocês devem lembrar que durante vários posts eu fico falando que são só os mesmos autores, as mesmas poesias, os mesmos zzzzzzzzzzzzzZzzzzzzz. Essa chatice toda que eu sempre falo. Mas eu ando tão animada agora com as coisas que ando lendo, que nem sei.

E Sophia diz isso (na Sorbonne, em dezembro de 1988) sobre poesia:

"Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria, ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si."

Melhor explicação, não há.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Poesia

Leio poesia o tempo todo. Os de sempre (Leminki, Alice Ruiz, Whitman...) e os de às vezes (agora Mário Quintana e Sophia de Mello Breyner). Ler poesia para mim não tem hora nem lugar (ficção tem). É sempre.

EU ME PERDI

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Sophia de Mello BreynerAndresen.

sábado, 25 de setembro de 2010

Sophia

Tão lindo......

"Eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser"

Sophia de Mello Breyner. Todo mundo tem que partir às vezes para saber.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sophia

"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes"

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Bom feriado, crianças.