E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atento a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lho de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever ,em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.
Tudo de bom que já foi dito sobre Walt Whitman e sua obra "Folhas da Relva" eu concordo. Por isso o nome deste humilde bloguinho que fala sobre literatura é uma homenagem ao grande poeta que, como disse Borges: "toma e não diz a ninguém a infinita decisão de ser todos os homens e escrever um livro que seja todos".
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
domingo, 17 de maio de 2015
Alberto Caeiro
Dá pra ler no livro, ouvir no carro, etc.
"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?
Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?
Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memória e de saudades
E de cousas que nunca foram.
Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."
domingo, 10 de agosto de 2014
Poema em linha reta
Eu não lembrava desse poema. A Fal me lembrou dele, eu fui buscar no meu "Ficções do Interlúdio/4" e lá estava. Um resuminho do que você vai ler (praticamente uma explicação para as redes sociais): todo mundo é esperto e lindo. Menos você.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita.
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas a infâmia;
Que contassem, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos, nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Poesias coligidas
3 caixas cheias de livro estão fechadas aqui ao meu lado. Não tenho apego aos objetos em geral. Mas demorei alguns dias para encaixotar os livros e ainda rolaram lágrimas porque eles devem ficar lá por algumas semanas ou meses. Sei lá o que me deu. Mas, os que ficam em outro móvel, não mudarão de lugar e me farão mais feliz neste meio tempo.
E Fernando Pessoa:
"Aqui neste profundo apartamento
Em que, não por lugar, mas mente estou,
No claustro de ser eu, neste momento
Em que me encontro e sinto-me o que vou,
Aqui, agora, rememoro
Quanto de mim deixei de ser
E, inutilmente, [...] choro
O que sou e não pude ter."
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Último trecho de "Apostila":
"Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisas,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino."
Que coisa linda.
Ficções do interlúdio/4 - Poesias de Álvaro de Campos.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Livro do Desassossego
"A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal."
Fernando Pessoa / Bernardo Soares. Livro do Desassossego.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Poesias Coligidas
"Quero, terei-
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei
Nada perdi.
Tudo serei"
Fernando Pessoa. Poesias Coligidas - Quadras ao Gosto Popular - Novas Poesias Inéditas.
Obs - é "inda" mesmo no original. Semana complexa, não?
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei
Nada perdi.
Tudo serei"
Fernando Pessoa. Poesias Coligidas - Quadras ao Gosto Popular - Novas Poesias Inéditas.
Obs - é "inda" mesmo no original. Semana complexa, não?
sexta-feira, 5 de junho de 2009
De "poemas completos de Alberto Caeiro"

"Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho.
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo."
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Poesias Coligidas

Resolvi pegar o livro da estante, abrir em qualquer página e escrever aqui:
"A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo -
Tudo isso, excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo."
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo -
Tudo isso, excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo."
Quadras ao Gosto Popular - Novas Poesias Inéditas.
MInha edição é a 5ª da Nova Fronteira, de 1981.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos

Lisbon Revisited (1926)
"Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar..."
Primeiro dia do ano não é meio assim?
Obs: a foto é o quadro de Almada Negreiros, de 1954.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Alberto Caeiro
Poemas Inconjuntos (1913-1915)
"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores; há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há sí uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."
"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores; há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há sí uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Pessoa / Bernardo Soares

"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado ao outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidade - gestos que me esquecera de fazer, ambições impossíveis realizadas sem rumo, conversas firmes e contínuas que, se fossem, teria sido. E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos a manhã livre e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam múltiplas no claustro do meu simples isolamento."
Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.
É isso.
Foto de: http://farm4.static.flickr.com/3133/2574687655_ab92c30c89_o.jpg
sábado, 13 de setembro de 2008
F. Pessoa

Um pouquinho mais:
"Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco."
Livro do Desassossego
Obs - foto do site www.mundocultural.com.br
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Fernando Pessoa
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