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terça-feira, 12 de abril de 2016

Fama e fortuna

Assinei meu nome tantas vezes
e agora viro manchete de jornal.
Corpo dói - linha nevrálgica via
coração. Os vizinhos abaixo
imploram minha expulsão imediata.
Não ouviram o frenesi pianíssimo da chuva
nem a primeira história mesmo de terror:
no Madame Tussaud o assassino esculpia
as vítimas em cera. Virou manchete.
Eu guio um carro. Olho a baía ao longe,
na bruma de neon, e penso em Haia,
Hamburgo, Dover, âncoras levantadas
em Lisboa. Não cheguei ao mundo novo.
Nada é nacional. Desço do meu salto,
dói a culpa intrusa: ter roubado
teu direito de sofrer. Roubei tua
surdina, me joguei ao mar,
estou fazendo água. Dá o bote.



quinta-feira, 3 de março de 2016

Ana Cristina

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Ana Cristina

10.1.82

Hoje que Mary está indo para Paris retomo o caderno terapêutico depois de ter dito que a minha cura era "falar tudo", que me desse e viesse, e assim, angustiada com a partida que me cala ou um flanco de mim, escrevo como quem fala tudo, querendo dizer que hoje, com o Patinho, senti que o meu compromisso primeiro era com a mãe, com as mulheres, com o colo delas, e só secundariamente com ele, com um apelo da realidade muda. Quero que uma mulher me acompanhe (ou ao menos o Armando, que fala tudo e preenche o vazio). Há coisas demais para fazer, não quero ir para minha casa, onde me sinto independente demais (é como um excesso). Volto para a casa de mamãe, e tenho de suportar a angústia de ter que me emudecer até a Mary voltar. Angústia é fala entupida.


sábado, 31 de outubro de 2015

Aventura na casa atarracada

Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse nada mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado:
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia,
e cimento armado
para o primeiro andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo,
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Ana Cristina César

Este é um dos meus livros mais lindos, sem dúvida. Fazia tempos que eu não falava dele aqui. Um trabalho maravilhoso.

E na página 35.


Por enquanto

Quando
então
sentada na cama de casal
lembro que nela te perdes de
beijos
estou sem ar
no ar mexo as mãos
olhos
força nos ombros no nariz;
a garganta solapa; via
estreita,
nossa conversa amena;
nossa amizade;
até o previsto e casto
adeus;
o tempo se poupa;
nos economiza;
o teu ouvido
mouco;
e o troco;
e enquanto isso,
fora,
o real constrói o poema,
imbatível.



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Neste interlúnio



Neste interlúnio
Sou um dilúvio ou me afogo.
E entre espectros que comprimem,
Nada se cumpre,
O destino esfarela.
De querela e farinha se ergue um olho.
As vozes despetalam,
Os períodos se abrandam,
Orações inteiras lentas se consomem,
Em poços há sumiço de palavras moucas.
Neste interlúnio
Sou fagulha ou hulha inerte.
Enorme berne entra corpo adentro,
Entre os dentes, carne.
Ante os dentes, carne.
Arde o ente e cospe,
Cuspe inútil invadindo espaço.
Moléculas moles coleando,
Víboras vagas se rimando,
Poetas quietos entreolhando.
Coisas coisas que falecem.
Neste interlúnio.
Sou coisa ou poeta.

agosto/68


domingo, 30 de setembro de 2012

Última

Caio fala, em uma de suas últimas crônicas publicadas no jornal O Estado de São Paulo, da morte de Ana Cristina César. Depois de tantas tentativas, a escritora "finalmente tinha conseguido" se matar. Um texto lindo, aliás um livro inteiro lindo. Leiam "A vida gritando nos cantos." E uma das frases dele, que serve para tanta coisa:

"Tão arrogantes: quem tem, afinal, o poder de salvar o outro de seus próprios abismos?"

Bom domingo, amigos. Não, a frase (para mim) não é melancólica. Só acho bem real.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ana C e poesia



"Cabeceira

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
'da sombra daquele beijo
que farei?'
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão"

Adorei: manobrar a lupa da adivinhação.

A Teus Pés. Instituto Moreira Salles. Página 65.

domingo, 18 de setembro de 2011

Ana C.



Lá fora

há um amor
que entra de férias.
Há um embaçamento
de minhas agulhas
nítidas diante
dessa boa bisca
de mulher.
Há um placar
visível em altas horas,
pela persiana deste hotel,
fatal, que diz: fiado,
só depois de amanhã
e olhe lá,
onde a minha lâmina
cortante,
sofrendo de súbita
cegueira noturna,
pendura a conta
e não corta mais,
suspendendo o pêndulo
De Nietzsche ou Poe
por um nada que pisca
e tira folga e sai
afiado para a rua
como um ato falho
deixando as chaves
soltas
em cima do balcão."

Ana Cristina César. A Teus Pés.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Um pouco de Ana C.

"Não adianta".

Antes havia o registo de memórias
cadernos, agendas, fotografias.
Muito documental.

Eu também estou inventando alguma coisa
para você.
Aguarde até amanhã.

Uma vez ouvi secamente o chega pra lá
e pensei: o mundo despencou

quem teria a chave?
Chamem os bombeiros, gritou Zelda.

Alegria! Algoz inesperado.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Inéditos e Dispersos

Última linha da página 202:

"Preciso ir muito devagar, mas a pressa de ficar bem me atrapalha."

Ana Cristina César.

Caros 6 leitores, dêem o ar da graça!

domingo, 8 de maio de 2011

Ana C.



"Vacilo da vocação

Precisaria trabalhar - afundar -
- como você - saudades loucas -
nesta arte - ininterrupta -
de pintar -

A poesia não - telegráfica - ocasional -
me deixa sola - solta -
à mercê do impossível -
- do real."

Ana Cristina César. A teus pés.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Relendo

Pego alguns livros de poesia e releio. Acho que todo mundo faz isso, não é mesmo? E descubro coisas que não tinha anotado na primeira página...

"Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal"

Ana Cristina César. Novembro de 1968. "Inéditos e Dispersos"

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O livro mais lindo volta



"Longe de distrair meu ânimo perturbado por interrogações, a leitura acabou-me conduzindo à compreensão do que a observação direta não fora capaz de fornecer. Na verdade estou ainda mais confundida por essa compreensão. Não sei se sou capaz de formulá-la. É forçoso admitir que o que aconteceu desconcerta. A leitura, longe de distrair meu ânimo perturbado por interrogações, acabou por restituir-me a capacidade de ver, por suprir-me as deficiências do olhar."

Ana Cristina César. Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa. Organizado por Viviana Bosi. Página 293.

Não tenho comentários.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ana C.



Os dias passam e hoje já é sexta. E acontece tanta coisa que parece que o hoje de manhã foi ontem.

"Volta e meia vasculho esta sacola preta à cata de um três
por quatro.

Exatamente o meu peito está superlotado.

Os ditos dele zumbem por detrás."


Ana Cristina César. A teus pés. Página 76.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Curtinho

Os textos estão mais curtinhos porque estou viajando e volto pra casa daqui 10 dias. Aí meus livros ficaram lá todos bonitinhos enquanto eu passeio.

Não sei se já falei do blog "don´t touch my moleskine". Sempre tem coisas legais e textos lindos. A frase abaixo da Ana Cristina César eu achei lá. Dêem uma olhada.

"Se você me ama, por que não se concentra?"

Foco é tudo, não?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Nada, esta espuma

"Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos."

Faltam dois versos para o poema acabar. Mas sempre corto onde me interessa. Oi?

Ana Cristina César. A Teus Pés. Página 97.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Carta

Carta de Ana Cristina César para Heloisa Buarque de Hollanda:

"Helô, coração,

Tô por aqui nessa Grécia curtindo os astrais do verão. Aproveitando o pouco do mar e sol que restam nessa Europa. Decidi transar um barco e me mandar para Ios, uma ilha incrível no Mar Egeu. Por aqui é tempo de estio e o sol está em leão. Danço samba nesse baile absurdo, e me visto de mim quando preciso e quando não preciso. E que tudo mais vá pro inferno, meu bem!

Acho enfim que é provisório ser da condição dos avessos."

O destaque (em bold) no texto é meu mesmo.

Correspondência Incompleta. Página 88.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Postagem 400

Como o título diz, chegamos ao post 400. Vou ver alguma coisa do passado e nem lembro mais. Minha memória mandou um beijão e disse que sente a minha falta. Queria fazer algo especial, selecionei um poema do Leminski, um trecho da Alma e acabei escolhendo uma frase da Ana Cristina César que ela escreve numa carta de 7 de março de 1980:

"Não quero ser moderna ("trendy", que gracinha) nem mestre em sofrimentos."

Que a nossa semana seja alegre e cheia de de boas notícias.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Teus Pés

"EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua história bem datada. Meus arroubos pela tua conjuntura."

Só as duas primeiras linhas do texto. "A Teus Pés". Página 45. A. C. César