A idade adulta traz aproximação, fluidez e dúvidas; e nós mantemos a dúvida a distância, recontando aquela história familiar, com pausas de efeito calculado, fingindo que a solidez da narrativa é uma prova de que ela é verdadeira. Mas a criança ou adolescente raramente duvida da veracidade e da precisão dos lúcidos e brilhantes fragmentos do passado que ela possui e celebra. Portanto, nessa idade, parece lógico pensar que nossas lembranças estão armazenadas em algum depósito de malas, prontas para serem resgatadas mediante um tíquete; ou (se isso parecer uma comparação velha, sugerindo trens a vapor e compartimentos só para mulheres), como mercadorias deixadas num desses depósitos individuais que existem agora nas principais estradas. Sabemos que devemos esperar o aparente paradoxo da velhice, quando iremos começar a recordar segmentos perdidos da nossa infância, que irão tornar-se mais nítidos do que os segmentos da meia-idade. Mas isso apenas parece confirmar que está tudo lá em cima, em algum depósito cerebral, tenhamos ou não acesso a ele.
Tudo de bom que já foi dito sobre Walt Whitman e sua obra "Folhas da Relva" eu concordo. Por isso o nome deste humilde bloguinho que fala sobre literatura é uma homenagem ao grande poeta que, como disse Borges: "toma e não diz a ninguém a infinita decisão de ser todos os homens e escrever um livro que seja todos".
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quinta-feira, 14 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Nada a temer
Julian Barnes, um puta escritor.
Talvez eu devesse avisá-lo (especialmente se você for filósofo, teólogo ou biólogo) que muito do que há neste livro irá parecer-lhe coisa de amador. Mas somos todos amadores no que se refere às nossas próprias vidas. ...Também quero avisá-lo de que haverá um bocado de escritores neste livro. Quase todos eles mortos, e uma boa quantidade de franceses. Um deles é Jules Renard, que disse: "É quando nos deparamos com a morte que nos tornamos mais afeitos aos livros." Também haverá compositores. Um deles é Stravinsky, que disse: "A música é a melhor maneira que temos de compreender o tempo." Estes artistas - estes artistas mortos - são meus companheiros de todo dia, mas também são meus antepassados. Eles são minha verdadeira linhagem (espero que meu irmão sinta o mesmo sobre Platão e Aristóteles). A descendência pode não ser direta, nem possível de provar - filho bastardo, essas coisas - mas eu a declaro assim mesmo.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Nada a temer
Recomendo sempre, sempre Julian Barnes ("O sentido de um fim" - um dos melhores livros dos últimos tempos). Aqui, um trecho de "Nada a temer"
"Eu poderia sair de casa mais cedo, morar no estrangeiro, ter filhos, não escrever livros, plantar bétulas, entrar para uma comunidade utópica, dormir com todas as pessoas erradas (ou, pelo menos, com pessoas erradas diferentes), tornar-me viciado em drogas, encontrar Deus, não fazer nada. Eu poderia descobrir formas inteiramente novas de me decepcionar.
Minha mãe me contou que vovô um dia disse a ela que a pior emoção da vida era o remorso. A que ele poderia estar se referindo?, perguntei-lhe. Ela disse que não fazia ideia, uma vez que seu pai tinha sido um homem da maior probidade (nenhum pufe perfurado, neste caso). E, portanto, esta observação - atípica do meu avô - paira no tempo sem resposta. Sinto muito pouco remorso, embora ele possa estar a caminho, e, enquanto isso, contento-me com seus amigos mais chegados: arrependimento, culpa, fracasso. Mas sinto uma curiosidade crescente pelas vidas não vividas, agora impossíveis de viver, e talvez o remorso esteja atualmente escondido em suas sombras."
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