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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Meu Michel

O tempo e a memória preservam especialmente as palavras banais. Favorecem-nas com sua compaixão. Estendem sobre elas uma penumbra piedosa.

Eu me apego à memória e às palavras como uma pessoa que se agarra a um parapeito, num lugar alto.


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Amós Oz e "Meu Michel"

O maior desejo de seu pai era que Michel se tornasse professor em Jerusalém, pois seu falecido avô, o pai de seu pai, fora professor de ciências naturais no Seminário Hebreu para Professores, em Grodno. Professor célebre. Seria bonito, na opinião do pai de Michel, se a corrente passasse de geração em geração.

Eu disse: "Família não é corrida de revezamento e profissão não é tocha."

Michel disse: "Mas eu não posso dizer isso a meu pai, que é um homem sensível e usa expressões hebraicas como antigamente se usavam serviços de frágil porcelana. Agora fale você de sua família."



terça-feira, 31 de maio de 2016

Fanatismo Comparado




"Eu chamei a mim mesmo de um especialista em fanatismo comparado. Não é uma piada. Se vocês alguma vez ouvirem falar de uma escola ou universidade que crie um departamento de fanatismo comparado, já estou pleitando um lugar como professor. Como um ex-hierosolimita, como um fanático recuperado, sinto que sou totalmente qualificado para esse emprego. Talvez já seja tempo de toda escola, toda universidade, manter pelo menos alguns cursos de fanatismo comparado, porque ele está em toda parte. 

Não me refiro somente às manifestações óbvias de fundamentalismo e intransigência. Não me refiro apenas a esses fanáticos óbvios, os que vemos na televisão, em lugares onde multidões histéricas agitam os punhos na direção das câmeras enquanto gritam frases de efeito em línguas que não entendemos. Não, o fanatismo está em quase toda parte, e suas formas mais tranquilas, mais civilizadas estão presentes ao nosso redor e talvez também dentro de nós mesmos. Conheço antitabagistas que queimariam você vivo por acender um cigarro perto deles! Conheço vegetarianos que comeriam você vivo por comer carne! Conheço pacifistas, alguns deles meus colegas no Movimento Israelense pela Paz, que gostariam de dar um tiro na minha cabeça só porque eu defendo uma estratégia um pouco diferente de como chegar à paz com os palestinos. Com isso não estou dizendo, é claro, que qualquer um que erga a voz contra qualquer coisa seja um fanático. Certamente não estou sugerindo que alguém com opiniões sólidas seja um fanático. Digo que a semente do fanatismo reside sempre numa autojustificativa sem concessões, uma praga com muitos séculos de existência."

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Como curar um fanático

Trecho de palestra de 2002.

Há muitos anos, quando eu ainda era criança, minha sábia avó me explicou em palavras muito simples a diferença entre um judeu e um cristão - não entre um judeu e um muçulmano, mas entre um judeu e um cristão: "Veja só", ela disse, "os cristãos acreditam que o Messias já esteve uma vez aqui e certamente voltará um dia. Os judeus afirmam que o Messias ainda está por vir. Por causa disso, houve tanta raiva, perseguição, derramamento de sangue, ódio... Por quê?". Ela disse: "Por que cada um não pode simplesmente esperar para ver? Se o Messias chegar dizendo: 'Olá, é um prazer revê-los', os judeus vão ter de admitir e reconhecer o fato. Se, por outro lado, o Messias chegar dizendo: 'Como vão, é um prazer conhecê-los', todo o mundo cristão terá de se desculpar com os judeus. Entre o agora e o então",  disse minha erudita avó, "simplesmente viva e deixe viver." Ela era definitivamente imune ao fanatismo. Sabia o segredo de viver em situações em aberto, com conflitos não resolvidos, com a alteridade de outras pessoas. 


terça-feira, 15 de março de 2016

Amós Oz

Trecho da palestra "Entre o certo e o certo" de 2002:

"Quando cunhei a expressão 'Faça a paz, não amor', eu não estava, é óbvio, pregando contra o amor. Mas sim, em certa medida, tentando acabar com a confusão amplamente difundida entre paz e amor e fraternidade e compaixão e perdão e concessão e assim por diante, que faz as pessoas pensarem que se elas apenas largassem suas armas, o mundo no mesmo instante se tornaria um lugar maravilhoso, adorável. Pessoalmente, acredito que o amor é um artigo raro. Creio que um ser humano, pelo menos segundo minha experiência, pode amar dez pessoas. Se for muito generoso poderá amar vinte pessoas. Um ser humano sortudo, muito felizardo pode até mesmo ser amado por dez pessoas. Se for extraordinariamente sortudo, pode ser amado por vinte pessoas. Se alguém me disser que ama a América Latina, ou que ama o Terceiro Mundo, ou que ama a humanidade, isso é muito vago para ser significativo. Como lamentava uma canção popular muitos anos atrás, 'Não há amor suficiente no mundo'. Não creio que o amor seja a virtude com a qual serão resolvidos os problemas internacionais. Precisamos de outras virtudes. Carecemos de senso de justiça, mas também de senso comum, necessitamos de imaginação, de uma profunda habilidade de imaginar o outro, às vezes nos pondo no lugar dele."


Obs - acho que o livro tem alguns problemas de tradução. Mas vale. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Como curar um fanático

Trecho final de uma palestra  proferida em novembro de 2015:

No livro que escrevemos juntos, Os judeus e as palavras, minha filha, professora Fania Oz-Salzberger, e eu afirmamos:


     Existe uma teologia judaica da chutzpá. Ela reside na sutil junção da fé, tendência a discutir e fazer humor de si mesmo. E redunda numa reverência especialmente irreverente. Nada é tão sagrado que não mereça uma zombaria ocasional. Você pode rir do rabino, de Moisés, dos anjos e até mesmo do Todo-Poderoso.
      Os judeus têm um longo legado de riso, às vezes adjacente ao nosso longo legado de lágrimas. Há uma sólida tradição de autocrítica agridoce, muitas vezes ao ponto da autodepreciação, que se mostrou um instrumento confiável de sobrevivência num mundo hostil. E uma vez que riso, lágrimas e autocrítica são quase sempre verbais, todos eles fluem tranquilamente no hábito hebraico e judaico de discutir por tudo e debater com todo mundo: consigo mesmo, com os amigos, com os inimigos, e às vezes com Deus.


Esses traços judaicos de rir e de discutir são ao mesmo tempo muito sociais e profundamente individuais. Vou terminar com uma reflexão sobre este verso sublime do poeta inglês John Donne: "Nenhum homem é uma ilha". A isso, ouso acrescentar: nenhum homem é uma ilha, mas cada um de nós é uma península: em parte conectado com a terra firme da família, da sociedade, da tradição, da ideologia, etc. - e em parte voltado para os elementos, sozinho e em silêncio profundo.

Penínsulas é o que somos - e nos deve sempre ser permitido continuarmos a sermos penínsulas. Eu me ressinto daqueles que ficam pressionando cada um de nós a sermos mais do que uma molécula sem rosto de alguma terra firme, alguma terra prometida, algum reality show, algum paraíso de extremistas - tanto quanto me ressinto dos que estão tentando nos tornar um arquipélago de ilhas isoladas, cada uma mergulhada numa solidão eterna e numa perpétua luta darwinista com todos os outros.

Nós, humanos, pertencemos uns aos outros, mas não da maneira dos fanáticos, e não da maneira comercialmente infantil. Pertencemos uns aos outros no sentido às vezes atingido na boa literatura: no dom da curiosidade, na aptidão para imaginar a vida na pele de cada um dos outros. E depois o momento de graça, o momento metaforicamente judaico no qual traduzimos nossas profundas diferenças individuais no milagre das pontes construídas por palavras.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Como curar um fanático

Texto originalmente apresentado (como discurso) na Alemanha em 2002, editado para a publicação do livro neste ano.



Se eu apenas pudesse comprimir um senso de humor em cápsulas e persuadir populações inteiras a engolir minhas pílulas de humor, assim imunizando todo mundo contra o fanatismo, eu poderia me candidatar um dia ao prêmio Nobel de medicina, não de literatura. Mas prestem atenção! A ideia de comprimir senso de humor em cápsulas e a noção de fazer outras pessoas engolirem minhas pílulas de humor para seu próprio bem, com isso curando-as de seu problema, já está ligeiramente contaminada pelo fanatismo. Sejam muito cuidadosos, fanatismo é fácil de pegar, é mais contagioso que qualquer vírus. Pode-se facilmente contrair fanatismo quando se está tentando vencê-lo ou combatê-lo. Basta ler um jornal ou assistir ao noticiário na televisão para ver quão facilmente as pessoas pode se tornar fanáticas antifanáticas, zelotes antifundamentalistas, cruzadas do antijihadismo. Por fim, se não conseguirmos vencer o fanatismo, talvez possamos ao menos contê-lo um pouco. Como eu disse, a capacidade de rir de nós mesmos é uma cura parcial, a capacidade de nos vermos como os outros nos veem é outro remédio. A capacidade de existir em situações em aberto, aprender a desfrutar da diversidade, também pode ajudar. Não estou pregando um relativismo moral total, certamente não. Estou tentando desenvolver a necessidade de cada um imaginar o outro. Divagar em relação ao outro quando brigamos, fantasiar sobre o outro quando reclamamos, imaginar o outro exatamente no momento em que achamos que estamos 100% certos. Mesmo quando se está 100% certo e o outro 100% errado, ainda é proveitoso pensar sobre o assunto.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Mais "Judas"

Guershom Wald inclinou-se um pouco para frente e disse:

"Em todas as línguas que conheço, e também nas línguas que não conheço, o nome de Judas passou a ser sinônimo de traidor. E talvez sinônimo de judeu. Para milhões de cristãos simples, todo e qualquer judeu está contaminado com o vírus da traição. Uma vez, quando eu ainda era estudante em Vilna, há cinquenta anos, num vagão de segunda classe de um trem a caminho de Varsóvia, sentaram-se à minha frente duas freiras, em seus hábitos pretos e capuzes brancos e brilhantes. Uma era idosa e de feições severas, amplos quadris e uma barriga pontuda de homem, enquanto sua colega, ao contrário, era uma jovem doce de rosto delicado, e seus olhos grandes e muito abertos me lançavam um olhar azul-claro, um olhar cristalino, um olhar que era só inocência e comiseração e pureza. Essa jovem freira parecia um quadro da Madona numa igreja rural, uma Madona que ainda era mais mocinha que mulher. Quando tirei do bolso um jornal em hebraico, o abri e comecei a ler, a freira mais velha me disse num polonês festivo e com um tom de surpresa e decepção:  Mas como isso, o senhor está lendo um jornal judaico? Imediatamente lhe respondi e disse que era de fato judeu e que em breve deixaria a Polônia e iria viajar para morar em Jerusalém. Sua coleguinha olhou para mim com seus olhos puros, que de repente tinham se enchido de lágrimas, e começou a me repreender com brandura, com voz de sinos: Mas ele era tão, tão doce, como vocês puderam fazer isso com ele? Eu, de minha parte, me contive com dificuldade, para não lhe responder que no dia e na hora em que se deu a crucificação eu por acaso tinha hora marcada no dentista."


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Mudanças

Página 286:


"Meus pais e também minha irmã me acusam agora de ter traído a família ao interromper meus estudos. De fato, talvez tenham mais razão do que eles mesmos pensam, porque a verdade é que os traí ainda muito antes de ter interrompido os estudos. Eu os traí desde que era um menino e sonhava que tinha outros pais. Os que estão dispostos a mudar, os que têm a força para mudar, sempre serão vistos como traidores pelos que não são capazes de qualquer mudança, que têm um medo mortal de mudanças, não entendem o que é mudança e abominam toda mudança."



sábado, 10 de janeiro de 2015

Amós Oz

Judas, página 157:

"Eu, meu caro, não acredito no amor de todos por todos. A quantidade de amor é muito reduzida. Um homem pode amar cinco homens e mulheres, talvez dez, às vezes até quinze. E mesmo assim, só raramente. Mas se vem um homem e me declara que ele ama todo o Terceiro Mundo, ou que ama a América latina, ou que ama o sexo feminino, isso não é amor, mas pura fraseologia. Ditos da boca para fora. Palavras de ordem. Não nascemos para amar mais do que um punhado de pessoas. O amor é um evento íntimo, estranho e cheio de contradições, pois mais de uma vez amamos alguém por amor a nós mesmos, por egoísmo, por cupidez, por desejo físico, por vontade de dominar o amado e subjugá-lo, ou, ao contrário, devido a uma espécie de desejo de ser dominado pelo objeto do nosso amor, e geralmente o amor se parece muito com o ódio e é mais próximo dele do que imagina a maioria das pessoas.

Veja, por exemplo, que quando você ama alguém ou odeia alguém, em ambos os casos você está a todo instante ansioso por saber onde ele está, com quem está neste momento, se está ou não está bem, o que está fazendo, no que está pensando, quais são seus temores. O coração é falso como ninguém, ele é incorrigível; quem poderá conhecê-lo? Assim falou o profeta Jeremias. Thomas Mann escreveu em algum lugar que o ódio não é senão o amor a que se acrescentou o sinal de subtração da aritmética. A medida do ciúme é a prova de que o amor se parece com o ódio, pois no ciúme se mesclam o amor e o ódio. No Cântico dos Cânticos, no mesmo versículo, nos é dito que forte como a morte é o amor, poderoso como o inferno é o ciúme."