segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Salve Rainha

A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
- já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
"Post-partum, Virgo Inviolata pemansisti.
Dei Genitrix intercede pro nobis."
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Os favoritos de 2016

No começo de 2016 eu coloquei para mim mesma uma meta (sabendo que iria cumprir) de 8 livros por mês. Livros do doutorado, livros infantis, tudo vale. Tudo é aprendizado. Tudo eu amo. 

Anotei e vi que cheguei ao 114. Viva a minha loucura. 

E aqui estão os meus favoritos do ano (para as 3 pessoas que se interessarem). 

Obs. 1: não há nenhuma categoria tipo "ficção" ou "não-ficção" e nem ordem - vou por ordem cronológica de leitura mesmo. Estou tão empolgada que coloco para vocês (mesmas 3 pessoas) o link de amazon/livraria cultura/afins.

Obs. 2: os livros não são necessariamente de 2016, mas só lidos no ano. 

1) Contos de cães e maus lobos - Valter Hugo Mãe
2) Como curar um fanático - Amós Oz
3) All who go do not return - Shulem Deen
4) The selected poetry of Yehuda Amichai
5) Shiva - A. B. Yehoshua
6) A delicadeza - David Foenkinos
7) Tirza - Arnon Grunberg
8) Flesh and Blood - Michael Cunningham
9) Flying Couch - a graphic memoir - Amy Kurzweil








domingo, 25 de dezembro de 2016

A gente vai e a gente volta

Na áltima página do "I'll take you there" de Wally Lamb tem a seguinte citação da Louisa May Alcott

"Far away there in the sunshine are my highest aspirations. I may not reach them but I can look up and see their beauty, believe in them, and try to follow where they lead."

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Flesh and blood

Achei um livro do Michael Cunningam que eu não tinha lido: Flesh and Blood. Lindo.

E na página 142

Tranca's mother had left everything: a husband, petunia beds, a blue-shuttered house on Zoe's street. She'd taken Trancas to live with her in drunken renunciation until she found the hard kernel of nothing from which she could start again. She was drinking her way to it, smoking Chesterfields two at a time. She was watching television, waiting for the day she'd wasted so many hours that the hours themselves would be ground down, the days indistinguishable from the nights, and she'd be able to look for a different self amid the wreckage. She wanted to drop acid with her daughter, but Trancas claimed she didn't know where to get any.




quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Versos do prisioneiro (8)


Noturno sou,
mas sem noite.

A grade já não mais
me prende a morada:
a treva sou eu
o escuro morreu.

Eis o meu segredo:
todas as noites
me deito num livro
para em outra vida desaguar.

Rio escapando da margem,
margem escapando um rio.

Já quis riqueza.
Roubei,
aluguei a alma
alarguei tendões
para abarcar posses.

Agora,
meu ouro é a palavra.
Agora, a poesia
á a minha única visita de família.

E quando me notam,
noturno no canto mais escuro,
não dão conta
da minha silenciosa evasão
nem escutam
o tilintar das chaves em minha mão.

Presos, agora,
apenas os que não entram
em meu novo cárcere.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Meu Michel

O tempo e a memória preservam especialmente as palavras banais. Favorecem-nas com sua compaixão. Estendem sobre elas uma penumbra piedosa.

Eu me apego à memória e às palavras como uma pessoa que se agarra a um parapeito, num lugar alto.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Final de "Breve Memória"



Solidões. E este ser maior
de que te falo, certa ânsia
e esta caminhada. E esta breve memória
que te entrego.

Não te queria só.
Nem macerado. Mas se este olho
que olha,
olha correto

(amigo
amado)
mais te quero assim
entristecido
do que em riso liberto
e distraído.

Bem mais te quero
endurecido
como a face minha.
Bem mais te quero
no gesto predisposto
à luta
do que no gesto ameno,
repousado.

Me fiz em pedra.
E assim é que te falo
desta vontade lenta
desta mansa espera.
Mas não me canso.
E se é feito de rudezas
minha voz,
um dia não será.
Tenho certeza.

13 de outubro de 1969
Casa do Sol, Campinas.