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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Carta de Otto a Murilo

Rio de Janeiro, 16 de maio de 1949.

Murilo,

Não receie tanto. A vida é nada e não há viagens (sobretudo quando se trata de Rio-B.Horizonte). Quer dizer que você vem mesmo da Montanha para esta grande e anônima Chantagem. Mais um profeta que deixa a sua terra... Já não sei, hoje em dia, se convém vir ao Rio. Sinceramente, sou incapaz de opinar nesse caso. Ando muito contra o Rio (apesar de gostar da cidade, de certo modo, e de certas coisas) e contra a ideia em geral de partir, de sair. Tudo me parece covardia, que cometeremos com certa leviandade, buscando fugir, em última análise, do grande, do espantoso fantasma que nos morde os calcanhares: nós mesmos.


sábado, 21 de maio de 2016

Bom dia para nascer

Trecho de crônica de 18 de agosto de 1991

Desamarraram o bode

Nada como um dia após o outro. Enfim começaram a tirar o bode de nosso casebre, ainda que aos poucos, em suaves prestações mensais. Ando com uma inclinação zoológica, que nada tem a ver com o modismo ecológico. Tampouco é aborrecimento com a natureza humana. Sou um temperamento indulgente, talvez porque precise de indulgência. De misericórdia, sim. A ser rigoroso, procuro ser comigo mesmo. Como lá dizia o outro, moral para vigiar, basta a minha. O que já me dá muito trabalho e pouco sucesso.

O bicho do dia para mim é o bode. Não o expiatório, que purga a culpa de todos. Mas sim aquele bode da anedota judaica. O pobre-diabo foi se queixar ao rabino. Morava numa lata de sardinha apertada e sem conforto. Pior do que buraco de favela. Só não era pior do que quarto de empregada doméstica em apartamento novinho em folha. E tinha a obrigação debaixo do mesmo teto. Filha, filho, afilhado, até sogra. Vocês sabem: o rabino mandou botar um bode no cubículo.

Passado um mês, tirasse o bode e veria o conforto se instalar em casa. Bode tem vários sentidos. 


domingo, 6 de dezembro de 2015

Publiquem mais livros de cartas, por favor.

De Otto Lara Resende para Fernando Sabino. Trecho de carta escrita em Bruxelas, 30 de julho de 1959.

"Deve ter uma explicação, ou pelo menos uma ficha catalogada, para o meu caso. Freud explica isso. Vejo meu nome impresso, me dá um aborrecimento de morte, uma contrariedade sincera, profunda e estapafúrdia, parece acusação pública, prestação de contas, julgamento. Por isso resumi meu nome de Otto Oliveira de Lara Resende para Otto Lara Resende, agora para Otto Lara e já estou me assinando O. Lara, amanhã começo a assinar O., depois engulo esse O. com pontinho, como numa dessas mágicas de circo, sumi, desapareci, me escondi no primeiro buraquinho do rodapé, vou morar no ninho de uma ratazana matronal, espicho a cara num perfil de camundongo, ai como deve ser bom ser camundongo de rabinho não muito comprido, chiando debaixo do assoalho, até que vem o Gatão e zás! Me devora, viro quimo e quilo ventral, saio cocô no cuzinho do gato, vou estrumar uma plantinha tenra, quem sabe perfumarei uma flor silvestre - é toda a glória que posso pedir, eu o inútil, o imprestável, o secreto, o envergonhado de ser, e assim entro no ciclo universal da vida, me transformo, me metamorfoseio mas não no ambicioso besouro de Kafka sim no limpo cocozinho de um preguiçoso gato de pensão (Manuel Bandeira). Não é preciso explicar meu estado de espírito, você já entendeu tudo."


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Otto e Fernando de novo

Trecho de carta do Otto Lara Resende para Fernando Sabino. "O Rio é tão longe".



"Lisboa, 6 de setembro de 1968.


São suas horas e picos da manhã, volto do cassino do Estoril, onde arrisquei uns escudos na roleta, ganhei quatro plenos de saída, parei, perdi 320 escudos na maquininha diabólica e devoradora, troquei as fichas e caí fora, Helena me esperava no salão lá fora, com a Mônica e a Andréa. Copo de leite pra variar (acho que sou o único sujeito em Portugal que toma leite de madrugada), cafezinho e cigarros às pampas, preciso fumar menos e trabalhar mais. Como é bom trabalhar, mesmo bestamente, estou cada vez mais convencido de que quem não cumpre com o seu dever cotidiano (os mais bestas: ir ao dentista, cortar o cabelo, fazer  barba atrasada, pagar a conta do alfaiate, comprar goma arábica) merece ser condecorado, que é um pobre-diabo infeliz, sem a alegria moral remuneradora de quem enche o seu dia na bigorna humilde dos deverezinhos de todo-santo-dia. Eu já perdi a esperança de me recuperar. Sou um caso perdido."


sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Rio é tão longe

Trecho da carta de Otto Lara Resende para Fernando Sabino, escrita em Bruxelas, em 01 de junho de 1957.


 "Me escreva, seu sacripanta. Você já viveu experiência igual e eu lhe escrevi muito. Me conte tudo. Fale com o Hélio para escrever, fale com o Paulo, com o Castello, com todo mundo. Não mando já uma carta ao Paulo, porque não tomei nota do endereço dele. Nem do seu, foi o Fernando que me mandou, mas do Paulo não mandou. Ouvi dizer (pelo mesmo Fernando) que saiu um artigo contra meu livro, por que não me mandam? E meu conto - saiu no Estado? Veja se me diz uma palavra, se não saiu vou escrever ao Décio. Valeria a pena mandar correspondência para algum jornal aí? Não seja ingrato. Escreva generosamente. Vi aqui, por vários dias, o Jorge C. Brito e o Dadá, que moram em Amsterdam. De vez em quando, fala-se de você. HVS deixou aqui um rastro de simpatia, Laís especialmente e o pessoal todo em geral gostaram muito dela. Em que ficou o seu caso no judiciário? Que pena! Ah, Fernando, a vida não é apenas um sorriso de cocktail! Abraços para todos".






segunda-feira, 6 de abril de 2015

Lembrete do Anjo a Fernando Sabino




Fernando Sabino, o Demônio é uma árvore frondosa cheia de frutos maduros e doces. O Demônio dá sombra aos caminhos fatigados, o Demônio, Fernando Sabino, dessedenta os que têm sede e dá de comer a quem tem fome. O demônio é uma romã fresca e saborosa depois do sol e do cansaço. Deus, Fernando Sabino, é uma galhada seca e magra, onde os homens sangram as mãos para nada. Uma caveira no meio do pé da estrada é Deus, Fernando Sabino. Deus é um osso duro de roer. Deus, Fernando Sabino, é uma fieira de dentes amarelos enfiados como em colar e passado no colo de um esqueleto esquecido de si mesmo. Fernando Sabino, o Demônio é uma macieira, o Demônio é alto, louro, simpático, tem olhos azuis e fuma cigarros americanos. Fernando Sabino, o Demônio tem poltronas, Fernando Sabino. O Demônio toma chá com torradas em varandas no flanco esquerdo e no flanco direito. Deus é cáustico e sem alpendre. Deus é uma caveira: PERIGO!

Otto Lara Resende
Rio, 24 de outubro de 1954
Noite


domingo, 4 de janeiro de 2015

Ahhhh as cartas....

De Otto Lara Resende para Fernando Sabino.

Carta escrita em Belo Horizonte, em 19 de janeiro de 1944.

"É o diabo haver sempre gente disposta ao cinismo de ter vinte anos. E é impiedade carregarem a gente assim contra a vontade para não sei onde, para a nostalgia dos 43 anos. Mas eu vou fazer 23, pílulas! E a vida não se limita ainda pela morte porque há caminhos que talvez seja preciso recusar. De qualquer maneira, à nossa revelia, tudo vai se imobilizando no granito dos compromissos e os amigos imperceptivelmente começam a usar chapéu-coco e já não admitem que lhes peguem pelo braço sem finalidade, apenas para 'puxar-angústia' ou para sobrenadar no balanço gostoso da conversa mole. Imperceptivelmente algumas coisas vão sendo surrupiadas, o vocabulário diminui e nem todas as palavras se dizem. Porque já não ficam bem. Talvez 23 anos seja uma idade. Mas meu coração é um passeio público."


sábado, 6 de dezembro de 2014

Otto e a melhor descrição.

Otto para Fernando (trecho de carta de 23 de julho de 1959):

"Vi outra crônica sua na Manchete, de Veneza. Gostei. Os venezófilos ficarão fulos com a sua irreverência. Eu aplaudo. A praia italiana de que fala o PMC é Pestum. Amanhã tem almoço no Caio, de despedida de nóis. Vou dar muita banana mental. Recebi um bilhete amoroso do Paulo e de outros. Fiquei satisfeito, qualquer prazer me diverte. Estou de um mau humor insuperável, naquele tom de voz incrível. Já não me suporto mais. Vou me expulsar de mim mesmo, me largarei na primeira sarjeta."


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Mais cartas

Como a gente (eu, Fal, Elaine, mais uns 5 no mundo) é doida por livro de carta, mais um pedacinho de uma do Otto Lara Resende para o Fernando Sabino (vocês já compraram esse livro? Ainda não? Não esperem mais, fazendo o favor) de 11 de junho de 1969.


"Como tem livro sobre ficção hoje em dia! É de ficar doido varrido. Desisti de ser culto. Me interesso por tudo! Por mais que eu diga que escolhi as minhas ignorâncias, quero saber de tudo: Inquisição, bruxaria, história de Minas, psicologia, sociologia, antropologia, ficção (técnica da), romances, contos, místicos, linguística, filosofia, história, crise do mundo moderno etc.etc.etc. Sem falar na sub-literatura, que me atrai pra burro. Recebi um livro do Affonso Ávila e outro do Rui Mourão, mineiros, o Rui sobre o romance de Graciliano. Quá! Tou que nem a Virgínia, quando tirou melhor nota de Francês do que a Cristina Chagas... Essa gente tem muita filosofança, muita sabedeira, cheia de fumaças universitárias, inglesías, americanose, nem criticism, mas ó, aqui ó: talento mesmo!... Nóis num e de se jogar fora não, Fernando. Caprichando, nós também estamos nessa Revolução, você não acha? Eu quero saber que revolução é essa. Você me diga, que eu também sou revolucionário, ora essa. Você não acha?".






terça-feira, 14 de outubro de 2014

Otto e Vinícius


Otto pede para o Vinícius se definir, logo no comecinho. Vinícius responde: "sou um labirinto em busca de uma porta de saída". Minha observação: Mas quem não é, Poeta? Quem não é?

Vejam! São quase 11 minutinhos de puro prazer.

sábado, 27 de setembro de 2014

Cartas

Elaine, Fal e eu trocamos ideias sobre o porquê gostamos desses livros. Cartas entre autores queridos, jornalistas, artistas - que delícia que são. 

Tenho os meus favoritos: do Leminski ao amigo Régis Bonvicino, do Hemingway para a família, do Capote para tanta gente e mais outros lindos. 



Aqui, do Otto Lara Resende para Fernando Sabino, trecho final de uma carta de 20 de maio de 1958 (Otto em Bruxelas, o amigo aqui):

"Como vão os amigos? Estou devendo carta a muita gente, mas ando numa vida doida, dormindo pouco, me agitando como nunca, para baixo e para cima, cheio de probleminhas e gente dependurada em todos os galhos de minha alma. Literatura, esqueci. Parei tudo, estou distraído de mim e de Deus. Às vezes, penso com angústia em tudo isso, mas não vou puxá-la (a angústia) agora. Deixo para quando você vier, pois você vem, não vem?

Como foi o livro do Paulo? O canalha nem ao menos me mandou um exemplar. Recebeu uma carta minha, a milésima, pelo aniversário dele, não deu a menor bola. Procurei visitar-lhe a sogra em Londres, escrevi contando minuciosamente - nada! Idem quanto ao Millôr. A estes dois, não escrevo mais.

E o Castello? Respondi-lhe petulantemente, mas ele não deu mais sinal de vida. Acho que não deve ter gostado, ou então me gozou muito aí, com você. Mas não faz mal. Eu agora não ligo mais e nada e sou um homem destemido, isto é, nada temo, nada, nada! Libertação do medo!

Procurou o Mozart Valente? Nem isso você me diz. Bom, vou parar, senão me queixarei até o fim e são tantas as queixas! Depois dizem que tenho muitos e bons amigos. Uma ova!

Adeus, doutor. Continue me intrigando, mancomunado com o Pedro Gomes. Mas, por favor, não me atribua frases pejorativas para com São João Del Rei. Qualquer pessoa que me conhece sabe que eu sou incapaz de depreciar a minha nobre e leal São João del Rei, que não troco nem por todas as capitais do mundo. Lá ficou um menino que não existe em nenhuma metrópole do mundo. E esse menino sou eu. Respeite esse menino, respeite a cidade desse menino. Não mexa com o S. João.

Abraço sempre amigo do velho e caluniado,

Otto."