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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Final de "Breve Memória"



Solidões. E este ser maior
de que te falo, certa ânsia
e esta caminhada. E esta breve memória
que te entrego.

Não te queria só.
Nem macerado. Mas se este olho
que olha,
olha correto

(amigo
amado)
mais te quero assim
entristecido
do que em riso liberto
e distraído.

Bem mais te quero
endurecido
como a face minha.
Bem mais te quero
no gesto predisposto
à luta
do que no gesto ameno,
repousado.

Me fiz em pedra.
E assim é que te falo
desta vontade lenta
desta mansa espera.
Mas não me canso.
E se é feito de rudezas
minha voz,
um dia não será.
Tenho certeza.

13 de outubro de 1969
Casa do Sol, Campinas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os dragões não conhecem o paraíso

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada. 

Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentada no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta da agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para transformar-se numa grande chaga.


"Os ladrões não conhecem o paraíso". Contos. Página 142.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Poesia do Caio



Ninguém saberá da secura de nossos olhos
da dureza de nossa boca ninguém saberá
do fio das unhas da dor no dente
do sangue guardado no fundo da gaveta

ninguém adivinhará os jardins atrás do muro fechado
ninguém quebrará o ferro do portão
ninguém violentará o secreto
ninguém te tocará profundamente
ninguém te saberá
ninguém.

Por isso olhamos as nuvens
sentados ao vento que não sopra
enquanto os balanços rangem
os rádios cantam
e a rua à nossa frente
é tão intocável como um quadro
pintado por outro.

Por isso olhamos em volta
e o que se passa além de nossa {palavra ileg.}
não nos soluciona
(ninguém sabe
ninguém saberá).

O caule quebrado do girassol
o livro de Toynbee sobre os degraus
a caneta riscando o papel
as nuvens
a tarde
a rua

o medo.

20 de dezembro de 1975

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Cantiga para ninar insones

Quieta, carência minha:
não pinceles assim, em ouro,
o que no barro é feito. Não
desvendes metáforas complexas
onde o verbo é quase sempre raso
e pouco. Não, não te atices
assim, toda a fim, outra vez,
de elaborar torturas acetinadas
sobre mesquinharias de algodão.

Não te bastou, então, toda essa estrada?

Quieta, quieta: silencia.
Como as tevês antigas, disciplinada,
procura ver em preto, em branco,
em calmaria. Não assim, despudorada,
policrômica, out-dooresca. Respira,
respira fundo, conta até dez.
Não telefone. Não fantasia.

Sossega. Chega de enganos.

Recolhe ardores indiscriminados,
os arrebatamentos, controla.
Controla-te, por favor, carência minha,
pois urge sublimar a ânsia do sublime.
Tenta, tenta. Ou toma um mogadom,
um valium, trinta miligramas (e três,
se for preciso). E dorme, dorme
bruta, dorme profundamente, dorme

sem sonho algum
enquanto chove dentro e fora a chuva fria

Amanhã tem mais.

Maio de 1982.




quarta-feira, 18 de maio de 2016

Poema do Caio

16 de dezembro de 1980

Amor não foi, mas invenção
pois te queria de ouro
enquanto eras de barro, águas,
tintura fria, verniz.

De ouro fui eu, o meu invento
em diamantes, rubis, águas-marinhas
engastadas no meu corpo
que nunca foi tão belo. E tão inútil.

Não sei se foi o tempo,
o vento norte, o sol impiedoso dos verões
que pouca a pouco te partiu em cacos

A chuva te desfez. Restou lama.
De mim, um brilho falso. Imitação.
Quinquilharias.


sexta-feira, 4 de março de 2016

Os dragões não conhecem o paraíso

Trecho do conto: Saudade de Audrey Hepburn (nova história embaçada)

Apertou o livro entre dedos subitamente frios, depois colocou-o no colo para ajoelhar-se e estender as mãos em direção ao fogo. Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias. Você indo embora. Eu indeciso entre beber um pouco mais ou procurar uma beata em plena devastação ou lavar copos bater sofás guardar discos mastigar algum verso adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar partir morrer dormir sonhar quem sabe. Você indo embora. Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca: mais frustração que ressaca, desgosto generalizado que aspirina alguma cura. Tocaria o telefone? Você indo embora, fotograma repetido. Na montagem, intercalar. Você indo embora você indo embora.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Poema do Caio

Colocamos ontem na nossa página e coloco aqui. Incrível o quanto a gente lê um autor e folheando o livro pela enésima vez, descobrimos algo novo. 

Faz anos navego o incerto.
Não há roteiros nem portos.
Os mares são de enganos
e o prévio medo dos rochedos
nos prende em falsas calmarias.
As ilhas no horizonte, miragens verdes.
Eu não queria nada além de olhar estrelas
como quem nada sabe
para trocar palavras, quem sabe um toque
com o surdo camarote ao lado
mas tenho medo do navio fantasma
perdido em pontas sobre o tombadilho
dou face e forma a vultos embaçados.
A lua cheia diminui a cada dia.
Não há resposta.
Queria só um amigo
onde pudesse jogar o coração
como uma âncora.




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Cartas

Eu falei deste livro de cartas do Caio hoje, para o nosso programinha, e aí comecei a reler algumas coisas. Não posso me deixar fazer isso. Quando vou ver, estou há tempos relendo um monte de coisa. 





Trecho inicial de uma carta escrita em São Paulo, 26 de março de 1985.

Marileeeeeeeeeeeeeeeeeeeeene,

Sinto-me à beira de receber uma carta thua, mas não consigo me controlar de tanta novidade, chê. Então me ponho a escrever, 15 para as quatro de um dia paranóide (Tancredo está hospitalizado nas Glínicas daqui, dizem que levou um tiro do segurança, meeedo total - mas isso é pano de fundo social), eu aqui sozinho, após a saída de Hilda, the slave.

Bueno, vamos lá. S'as que ontem, segunda, esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão, mui lépida, assando umas coxas de franga, eis que senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. Ela estavam mui poeticamente, de costas para o fogão, observando aquela pêxa grávida no aquário, que não se decide a parir (vão ser arianos, os demônios, eu esperava pêxes de Pêxes, s'as?). Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que, atrás do fogão, vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO. Joguei água, aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo", bem natural), e ele começou a me puxar pra fora da cozinha, ao gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". Marilene, ousadíssima, queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas, isto é, carbonizadas). Bueno, corremos para o corredor do prédio. Duas velhinhas muito velhinhas saíam do elevador. Sergião: "Corram, saiam depressa que vai explodir tudo!". Uma das velhinhas começa a desmaiar. Junta gente na porta do prédio. Seu Antônio, o zelador, vem com um extintor de incêndio. Gritos, sussurros, gemidos, faniquitos. Fumaça, cheiro de gás, "apaguem os cigarros!". Marilene correu para seu quartinho e, num sopro, apagou a vela de sete dias, juro, & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. Bom, o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala. E fim. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda, ela - continua grávida. Ai, a tremedeira. Que medo!

Obs: Respeitando todas as gracinhas gramaticais dele. É claro. 








terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Carta de Caio para Cida Moreira

Trecho de carta escrita em 18 de novembro de 1994.

"Criança, descobri, é mais curativo que AZT. Então estou assim, muy tia, e daquelas tias solteironas carentes exploradas pelos sobrinhos, a quem cobre de presentes e estraga completamente a educação dos pais. Daquelas tias que ficam na memória, tipo a Clotilde de Éramos Seis (que bela atriz a Jussara Freire, hein?). Mas como eu ia dizendo, agora que a saia-justa-de-couro-cru-sem-fenda-em-nesga pintou, é hora de fazer tudo que sempre quis. E é maravilhoso ver Tudo Que Sempre Quis é simples, belo acessível, fácil, do bem. E precioso, exatamente porque pode ser fugaz. Comecei a aprender isso no hospital, continuo aprendendo."


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Final de "Carta dispersa à beira de um não-ser"

Amigo,
não me queiras mal porque te amo
se pensas, porque te amo, que te magoaria.
Ainda é cedo para o tempo de rudeza,
não que sejas fraco, não o és,
mas porque dóis saber que um certo tempo
permaneceu em mim como uma seta

PS Já se faz noite. Estou sozinho.
Tenho uma dor que mata, a mão vazia:
mas ainda que anoiteça, Fernando,
é certo que amanhece.

Caio F. Abreu


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Caio 3D - O essencial da década de 1980

E agora?
Três, quase quatro anos depois
Cadê você?
Cadê a grande mutação?

Pintaram as rebordosas. Continuaram pintando. Nós continuávamos resistindo mas às vezes penso que viver não dever ser apenas isso, segurar a barra.

Continuamos carregando nossas pequenas maldições - mais orgasmos, insônias, pesadelos, excessos de álcool e cigarro, procura cega, iluminações ilusórias e passageiras etc. O mundo continua apodrecendo, os amigos vão para a Europa, para a clínica ou para a prisão, viciaram-se nas drogas mais diversas. Em nome de que resistimos? De onde tiramos essa energia, que é meio talvez uma falta de energia por não termos conseguido radicalizar e mudar alguém e ou a nós próprios, ou enlouquecer e fugir pro mato. Normalmente resistimos enquanto o coração resseca, os olhos endurecem, as deliberações se frustram.

Desmascaramos a farsa para continuarmos a existir no meio dela. De que nos tem servido essa lucidez senão para chamar barra cada vez mais pesada?

Batalhamos a paz, a divina indiferença. Pra termos sede de amor e de beleza. 

(estou sem dinheiro no verão, baixa o astral de qualquer um)

Com ou sem nova convivência, somos profundamente infelizes. Nosso saldo é o desencanto. E você, onde andará?



Foto da minha prateleira. Peguei o livro pra folhear. Essa página (192) não estava marcada como favorita. Vai saber o porquê. Agora está.

domingo, 11 de outubro de 2015

Cantiga de hoje à noite



Não. Não me peçam gentilezas.
Se penso em flores, céu e campo,
o pensamento espalhado bucólico em recantos de infância,
se pesquiso espantos renascidos de ocultos vãos de memória,

a forma me sai fria, em gelo e sal.
Nos ásperos caminhos de meu tempo
já não encontro passos predestinados:
cirandas confusas em torno de ídolos de pedra
desesperados abraços, desvairados encontros
sem amanhã, sem depois.
Já não consigo amenidades no falar.
As estruturas criadas em cristal são apenas vidro,
vidro partido violentando veias de onde nasce um sangue inerte.

Inútil sangue de meu tempo
Percorrendo escuros caminhos de cansaço.

Por favor, não esperem doçuras de meu canto.
Não esperem doçuras de ninguém mais,
não esperem sequer o canto:
maldito aquele que quiser purezas.
E no entanto, houve um tempo em que eu cantava.
Nos teares antigos de meu peito
rocas de prata entreteciam esperas,
intermináveis rendas de alegria.
Geradas por raízes de terra
uma seiva lenta e calma envivecia os membros.
Ainda assim, o voo pesa.
O impossível voo em meu corpo sem asas.

Peçam-me apenas silêncios. E que no meu escuro claustro
encontre aqueles cantares, encontre a mão de um amigo.
Mas já não creio em canções e os amigos me traíram.
E em traições e guitarras, difícil achar a flor.

13 de abril de 1969.




terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cantiga de amor idiota



Para mim doeu. Só de ler.

"Um punhado de sal
em plena ferida aberta
ou
como um sorvete gelado no nervo
exposto
do dente
ou
que nem uma brasa viva
fechada
dentro da mão
ou
igual arame farpado
no branco escuro do olho
ou
um prego no pé descalço
ou
um soco na cara nua
ou
punhal entrando na tripa

assim te ouvi dizer
- não."

04 de julho de 1977.


domingo, 2 de agosto de 2015

Dama da Noite

Às vezes é assim como o Caio fala:

"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo , por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?"



domingo, 5 de julho de 2015

e todos os dias

e todos os dias
trazer à tona meu melhor rosto
para que os outros não se assustem
para que os outros não se espantem
para que eu não me dane e sangre

e todos os dias
depurar o melhor de mim
e não deixar nenhum espinho à tona
e não deixar nenhuma dor à mostra
e não deixar nenhuma cicatriz visível
combater a voz rouca com gargarejo de salmoura
esconder as olheiras com óculos escuros
e dizer coisas, mesmo sem sentido,
o tempo todo, dizer coisas e mais coisas e outras coisas
para que o silêncio não agrida nem pareça fundo
como um poço
para que o poço não assuste

e todos os dias
não deixar a sede vencer a garganta
e não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)

e todos os dias
e todos os dias
controlar o ridículo
para não confessar amores inconfessáveis
delimitar o cansaço
mastigar a solidão
tomar um ônibus
e voltar sozinho para casa, em passo lento
ou então beber num bar qualquer
qualquer bebida, qualquer companhia,
beber, beber, beber, beber
e não esquecer nada.

e hoje como ontem
todos os dias
um dia depois do outro
amanhã eu sei
amanhã também.



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Carta dispersa à beira de um não-ser



Trecho do poema do Caio:


Amigo,
escuta bem porque calar não calo,
porque até o fim me cumprirei no que consome,
escuta bem, te peço claramente:
essas noites de roxo e de procura,
essa sede nas mãos, tão disfarçada,
esse ácido que, bem sei, te esmaga
como a mim próprio dissolve e mata
(não, não há remédio contra sermos sós)
- é tudo tão duro amigo, amado,
e não compreendem o meu querer calado e pouco:
não mais que isso - um fundo canto
e a mão de qualquer amigo perdida dentro da minha.
(Um anjo negro de desvairadas órbitas
atrás da minha andança descompassada: ah
te daria tanto se querer quisesses.)






quinta-feira, 28 de maio de 2015

Poema do Caio



não sei bem se era pedra
mas no meio do caminho
houve um cansaço, uma queda
um vacilo, um desabraço
um suspiro ou um tropeço
um bagaço, algum cochilo
qualquer coisa tão pequena
nós nem notamos que havia

não sei direito o que houve
ou que não houve, quem sabe
sei que não tinha preparo
em nós, nas coisas, em nada
sei que a gente não sabia
dos meandros do caminho
dos depois que vinham vindo
para amargar nossas bocas

deve ter tido um começo
espaço, cama, cozinha
quem sabe uma mesa posta
talvez um rádio ligado
não lembro daquela hora
minha memória dormiu
não localizo esse dia
tua memória, apagou

depois de todo esse tempo
sobrou um corpo a teu lado
e um arremedo de espanto
restou um corpo a meu lado
e esta ressaca de encanto

26 de novembro de 1980.




domingo, 19 de abril de 2015

Caio



Primeira parte de "Breve Memória"

1. Muitos mares andei. Outros pensei.
E nos pensares muito mais vivi
que nos andares
pausados, estes. Compassados.
Lentos de agonia e de quebranto
numa rota de fogo
estilhaçada

Se idílios tive, nem no corpo
houve um mistério de luz
uma alvorada
uma avenca crivada de rubro
e de certeza. Não.
Não tive.

Mas nos voos mais abertos
me encantei. E um roteiro
de encontro, a mão calada,
uma face presente, perto à minha,
certa paz
certa riqueza
certa força - alada - em sonho tive.

De marcas não foi feito meu andar.
Nem de levezas.
Porque se andei
(lento
descompassado)
um voo desvairado de esperanças
transportava meu corpo,
meus pisares.

Alguns marquei. Outros marcaram.
Porém o passo nunca teve abrigo.
Albergue nunca fui. Nem me fizeram.
E se em voos tive a face amada
em corpo fui pobreza
em corpo fui silêncio e nada:
um amado de ausência eu acalento.




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

De Caio para Guilherme de Almeida Prado

Estávamos falando deste livro lá no face. Aí resolvi ser a monotemática de sempre e colocar mais um trecho aqui. Escrito em 12 de abril de 1994.



"Devo estar chatíssimo, mais 'blasé' do que nunca, com todo esse texto parecendo discurso do Partido Verde... Et voilá: sou também um pouco tolo, um pouco naive, um pouco pêra - e eternamente Bambi. Quando a barra pesa, compro flores e ouço Mozart. Não creio que isso seja gostar de uma 'baixaria bem brega'. Além disso, essa linguagem rasteira absolutamente não combina com você - um von Almeida Prado!

Sinto que o Brasil tenha ficado 'ainda mais medonho' sem mim. Em compensação, a França parece ter ficado ainda mais encantadora comigo. Os livros caminham lindamente, críticas ótimas nos jornais e revistas mais importantes, rádio, TV. Ontem - foi hilário - dei autógrafo na rua, em Saint-Germain de Prés, para um garoto - estranhamente chamado Damour - que viu um dos programas de TV, comprou os três livros, deu vários de presente. Cheguei na editora rindo: meu Deus, a Laika de São Paulo a negra sem ter onde morar, vivendo com 500 dólares por mês, lavando roupa num balde sob o chuveiro, fazendo a feira toda sexta - dando autógrafo em Saint-Germain!"



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Opus 9 número 2

"XII
não não me deem opiniões sobre mim mesmo
não marquem encontros sem aparecer
por favor por favor não me enlouqueça
não me obriguem a preencher impostos de renda
não me peçam para trazer amanhã se falta o número do cê gê cê
nem me exijam fotografia dois por dois ou três por quatro
igual a essa
de onde você me olha com olhos de quem já olhou de cima dos andes peruanos
e eu nunca fui lá

XIII
sempre achei
que há um momento na vida
em que a gente precisa respirar fundo levantar
e imediatamente
fazer um café bem forte
(não só fazer
tomar, é claro)
há quem diga que a maioria das pessoas está três uísques abaixo
eu prefiro achar que a mesma maioria está um café a menos
de preferência bem forte muito preto e sem açúcar
se é que entende
o que quero dizer
se é que me entende
porque se não entende
não há papo
nunca houve
nem haverá."