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domingo, 21 de setembro de 2014

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres



"Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo."

Página 73.


sábado, 14 de julho de 2012

Clarice


Trecho final de "Adeus, vou-me embora!" de 20 de abril de 1968:

"O contato com o outro ser através da palavra escrita é uma glória. Se me fosse tirada a palavra pela qual tanto luto, eu teria que dançar ou pintar. Alguma forma de comunicação com o mundo eu daria um jeito de ter. E escrever é um divinizador do ser humano.

Como? Mas como é que eu escrevi nove livros e em nenhum deles eu vos disse: Eu vos amo? Eu amo quem tem paciência de esperar por mim e pela minha voz que sai através da palavra escrita. Sinto-me de repente tão responsável. Porque se sempre eu soube usar a palavra - embora às vezes gaguejando - então sou uma criminosa se não disser, mesmo de um modo sem jeito, o que quereis ouvir de mim. O que será que querem ouvir de mim? Tenho o instrumento na mão e não sei tocá-lo, eis a questão. Que nunca será resolvida. Por falta de coragem? Devo por contenção ao meu amor, devo fingir que não sinto o que sinto: amor pelos outros?

Para salvar esta madrugada de lua cheia eu vos digo: eu vos amo.

Não dou pão a ninguém, só sei dar umas palavras. E dói ser tão pobre. Estava no meio da noite sentada na sala de minha casa, fui ao terraço e vi a lua cheia - sou muito mais lunar que solar. E uma solidão tão maior que o ser humano pode suportar, esta solidão me toma se eu não escrever: eu vos amo. Como explicar que me sinto mãe do mundo? Mas dizer "eu vos amo" é quase mais do que posso suportar! Dói. Dói muito ter um amor impotente. Continuo porém a esperar."

Todo mundo tem que ler "A descoberta do mundo". Sério.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Clarice


Trecho de crônica publicada em 14 de outubro de 1967.

"DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece."

A descoberta do mundo. Clarice Lispector.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Frase

Quando leio e quando ouço músicas sempre presto atenção em frases isoladas. Sempre quero ler a frase mais bonita, ouvir a música pela centésima vez e perceber algo que não tinha prestado atenção ontem. Para mim, na maioria das vezes, frases e pensamentos isolados são mais significativos do que trechos e parágrafos e estrofes e sei lá....

Antes de eu parar por aqui, olho os livros ao meu redor, e pego tantos, mas tantos, que vocês não imaginam, até chegar em alguma coisa. Não é obrigação, eu sei. Acho que é uma das minhas terapias.


"Ela vivia de um estreitamento no peito: a vida."

Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Página 40.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Clarice

Clarice escreveu em julho de 1971 "É preciso parar":

"Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?

Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

A descoberta do mundo. Página 365.

Vocês estão por aí??

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Clarice

Autores são figuras geniais mesmo. É impressionante a construção dos textos. Quando releio algumas coisas daqui das prateleiras, fico tão feliz pela redescoberta......:

"Tenta em vão ler para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo, inventar um programa, frágil ponte que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo possível. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio? Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te abençoar?"

Clarice Lispector. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Página 36 (minha edição da Rocco).

Preciso ler mais Clarice.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

"Também era bom que não viesse tantas vezes quanto queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz. E habituar-se à felicidade, seria um perigo social. Ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o eram, menos sensíveis à dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisavam - tudo por termos na graça a compreensão e o resumo da vida"

Página 136. Clarice.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres



Vários livros na pilha, mas este entrou na semana passada e eu li em alguns dias. Por que não tinha lido antes? Sei lá. Só agora M. me falou pra eu ler. E não vai dar pra ler tudo que a gente quer nessa vida, não é mesmo?

"Temia que, se ela conseguisse avançar a ponto de ficar mais pronta e viesse a aceitar aproximar-se dele, ele com franqueza pudesse simplesmente dizer-lhe que já era tarde. Porque até as frutas têm estação."
página 89.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Clarice


Eu leio vários livros ao mesmo tempo (todo mundo, né?). E um deles é "Clarice Lispector - outros escritos". Há vários textos inéditos e um dos que mais me chamou a atenção foi "Traduzir procurando não trair" que ela fala sobre as questões da tradução, obviamente. Foi publicado na Revista "Jóia" em maio de 1968.

"O tradutor, professor de literatura portuguesa e brasileira numa universidade, fez um longo prefácio ao livro sobre literatura brasileira. Chegou à conclusão estranha de que eu era ainda mais difícil de traduzir que Guimarães Rosa, por causa de minha sintaxe. Não se assutem, nesta coluna esforço-me por não usar uma sintaxe que me é íntima e natural. Com um pouco de vergonha, já tinha esquecido o que quer dizer sintaxe. Perguntei a um amigo, que explicou: sintaxe é o modo como a frase se coloca dentro do período. Fiquei um pouco na mesma. E também desconfiada de que não podia se tratar apenas disso: uma palavra tão grave quanto sintaxe não podia significar simplesmente isso. Tenho o maior respeito por gramática, e pretendo nunca lidar conscientemente com ela. Em matéria de escrever certo, escrevo mais ou menos certo de ouvido, por intuição, poi o certo sempre soa melhor."

domingo, 2 de novembro de 2008

Mais Clarice



"É curiosa esta experiência de escrever mais leve e para muitos, eu que escrevia 'minhas coisas' para poucos. Está sendo agradável a sensação. Aliás, tenho me convivido muito ultimamente e descobri com surpresa que sou suportável, às vezes até agradável de ser.

Bem. Nem sempre."

Clarice Lispector. 15 de janeiro de 1972. "A descoberta do mundo".


foto do site oglobo.globo.com

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Clarice (1920-1977)


Não faltam trabalhos, dissertações ou teses sobre ela (não é Isabel?), então não serei eu que gastarei mais falando e/ou explicando. Aqui vai somente um pedaço de um texto publicado em 07 de outubro de 1967 no Jornal do Brasil (tudo publicado no maravilhoso - "A descoberta do mundo"):

MEDO DO DESCONHECIDO: Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade.


obs: A foto é do site www.releituras.com.br