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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Conclusão



Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda...
vida mais difícil.



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A norma e o domingo

Comportei-me mal,
perdi o domingo,
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.

Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.

Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não-domingo?

Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Recusa


"Não entendo, não engulo este latim:
Perinde ac cadaver.
'Você tem que obedecer como um cadáver'.

Cadáver obedece?
Tanto vale morrer como viver?
Para isso nos chamam, nos modelam?

Bem faz Padre Filippo:
cansado de obedecer, vai dar o fora
para viver no mundo largo
a fascinante experiência de só receber ordens
do seu tumultuoso coração."


Sábio Padre Filippo.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Drummond


Amo os livros do Instituto Moreira Salles que reproduzem exatamente o original. Este é o do Drummond. 

"VII - Rio de Janeiro

Fios nervos riscos faíscas.
As côres nascem e morrem
com um impudor violento.
Onde meu vermelho? Virou cinza.
Passou a bôa! Peço a palavra!
Meus amigos todos estão satisfeitos
com a vida dos outros.
Futil nas sorveterias.
Pedante nas livrarias...
Nas prais nú nú nú nú nú
Tú tú tú tú tú no meu coração.

Mas tantos assassinatos, meu Deus.
E tantos adulterios tambem.
E tantos, tantíssimos contos do vigario...
(Este povo quer me passar a perna.)

Meu coração vae mollemente dentro de um taxi."

O livro é de 1930, a grafia do poeta não foi alterada.

Tantíssimos contos do vigário.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Balada do amor através das idades



"Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quanto vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos."

Coisa mais linda.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia D



Hoje, todo mundo já sabe, é aniversário do poeta.

SENTIMENTAL

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

-Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."


Lindo.

Obs: E todos os livros do Drummond com desconto lá na Livraria Cultura....

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Toada do amor

"E o amor sempre nessa toada:
briga perdôa perdôa briga.

Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta pra brigar
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

Mas si não fosse elle tambem
que graça que a vida tinha?

Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito"

Drummond. Alguma poesia. E respeitando a ortografia da época.

Boa semana, leitores.

sábado, 24 de julho de 2010

Drummond



O livro é lindo demais. Já disse isso no último post sobre o autor.

Aqui vai um trecho de "A Rua Differente":

Na minha rua estão cortando arvores
botando trilhos
construindo casas,


Minha rua acordou mudada.
Os visinhos não se conformam.

Elles não sabem que a vida

tem dessas exigencias brutas.

Respeitada a grafia de 1930.

Alguma Poesia - o livro em seu tempo. Carlos Drummond de Andrade (org. de Eucanaã Ferraz). IMS. páginas 123.

sábado, 3 de julho de 2010

O segundo livro mais lindo

Aquele livro feito pelo Instituto Moreira Salles (da Ana Cristina César) é uma coisa. Já falei sobre ele em vários posts passados. Aí ontem vi o segundo livro - da mesma linha só que do Drummond. Outra coisa linda. Anotações dele mesmo (que parecem que foram feitas especialmente para você.....) sobre o "Alguma Poesia" de 1930.

Não consigo achar foto do livro, só no site da livraria cultura mesmo. A organização é de Eucanaã Ferraz e o nome completo é: "Alguma poesia - O livro em seu tempo".

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fim de agosto e Drummond

Não posso reclamar do mês de agosto. Todo mundo diz que sempre é complicado. Pra mim já foi em anos passados, agora não é mais. Coração alhures, como diria Ana C. Vamos acabar este mês com Drummond? E setembro será mais lindo ainda.


MÃOS DADAS
- Drummond

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da
[ janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
[ homens presentes,
a vida presente.

obs - Tirei deste site aqui: http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond21.htm

terça-feira, 9 de junho de 2009

Restos




Não me perguntem qual a razão, mas tenho só um livro de Drummond: "Farewell". Vai saber....

Aqui está "restos"

"O amor, o pobre amor estava putrefato.
Bateu, bateu à velha porta, inutilmente.

Não pude agasalhá-lo: ofendia-me o olfato.

Muito embora o escutasse, eu de mim era
[ausente"

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Não tenho capacidade para falar de Carlos Drummond de Andrade. Nunca estudei Drummond na Puc (com profundidade, na literatura brasileira só ficou Grande Sertão - oh yes!!) e li só algumas coisas. Enfim, depois de expressar minha ignorância, aqui abaixo há um texto dele chamado 'Ausência" onde ele escreve ao final "com o pensamento em Ana Cristina César". O texto está no livro dela.

"Por muito tempo achei que a ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

Ausência é um estar em mim

E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim."