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domingo, 25 de novembro de 2012

Composição


"Quando perdi quase tudo,
descobri que a dor
não era maior que o sonho.
Quando esqueci o caminho,
vi que o horizonte
ficava do lado errado.
Quando só o meu rosto
sobrava em cada espelho
(e nada do lado de cá),
juntei desalento e desejo
e me reinventei
com carinho.

(Agora pareço comigo
antes de o amor ser
cancelado.)"

Que coisa bonita, né? Boa semana, amigos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Somos inocentes


Aí você pega o livro, vê as anotações que você fez na primeira página e decide passar por elas e se  aventurar pelos poemas de novo. Até encontrar algo que não te chamou a atenção na primeira leitura de meses (ou anos atrás). Como isto:

"A parte dura desta humana lida
é dizer sim na hora do não,
escolher mal entre silêncio e grito,
entre a noite e a explosão 
do dia.

Ceder quando devíamos negar, dizer
não em lugar de afirmar, partir
quando era bom amar, fechar-se
em vez de resgatar a vida.

Sermos tão incertos e indecisos,
perdendo o trem, a hora,
o agora: mas a gente
não sabia."

Algumas horas temos que nos abrir, outras - resgatar a vida. E para saber o quando e a vez de cada coisa? 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Lya Luft



Pra gente começar bem a semana: "auto-retrato"

"Alguém diz que sou bondosa;
está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa,
e acho graça.
Não sou áspera nem amena:
estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa;
corte, sangue dor e aroma,
para que a beleza fique na memória
quando a flor passa.


(Amar é lidar com os espinhos
de quem ama por inteiro:
com força, não com fraqueza.)"

Boa semana, amigos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mar demais



De Lya Luft:

"O mar das nossas viagens
divide horizonte e cais,
e nos dois lados acena
a opção de ir ou ficar.
Quem navega, não pensa
em perda nem permanência:
só busca o caminho das ondas
e do ar.

O mar da esperança é fundo,
quem nele navega é rei:
pois se estrelas são miragem
entre cais e horizonte, cada viagem
chega mais perto da fonte:
isso não se pode medir nem
mudar."

Tem como não amar poesia, gente???

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Lya Luft



"DIZENDO ADEUS


Estou sempre dando adeus:

também ao desencontro e ao
desencanto.

Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do porto de chegada que nunca é

aqui.

Estou sempre dizendo adeus:

até a Deus,

para o reencontrar
em outra esquina
de adeuses.

Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses:
quando me fizeres dar adeus à solidão e
à sombra."


Para não dizer adeus. Página 15.

domingo, 31 de julho de 2011

Poesia

Lya Luft para encerrar o mês:

ESCOLHA

"Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Vôo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu
quero o delírio."

Amo este poema. Eu quero o delírio. Oi?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Conflito

Primeiro verso:

"Tenho medo das águas do destino
a invadirem o que penso e faço,
numa linha de infinda
contradição.
Eu sou assim:
quero fugir mas chamo,
quero ficar mas me assusta
não ter em mim nada seguro
e certo."

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Limites

Começando a semana com Lya Luft:

"Abro a gaveta, e salta uma palavra:
dança sedutora sobre o meu cansaço,
veste-se de indefinições, vagueia
no labirinto das ambigüidades.
Acha graça de mim, que espero à frente
encontrar a solução dos meus enigmas.

Tento uma geometria que a contenha
no espaço entre dois silêncios quaisquer,
mas ela decide meus passos: peso de fruta
no sono da semente, assiste à minha luta
quando a desejo aprisionar, e às vezes até finge
que sou eu a senhora, a domadora, a fonte.

As palavras riem dos poetas, pois são livres:
nós, mediação incopetente".

E boa semana aos seis leitores...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Reverberação

"O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que diz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)"

Lya Luft

Coisa linda, não?

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Lya Luft

Acabei o livro de poesias. Adorei. E "Ainda Infância":

"Nem sótão nem porão,
na minha casa real. Nem mar:
porém as águas chegavam,
varando as negativas e os silêncios.
Não havia como não embarcar.

Jardins, morros azuis, fantasmas
nas janelas: para sobreviver, podei
a árvore dos pressentimentos,
calei o vento e sua voz
de folhas.
Crescer
foi desistir de a escutar."

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Lya Luft



Comprei "Para não dizer adeus": poesias da Lya Luft (não, não tinha lido as poesias). Cada coisa linda.... e na apresentação (que ela escreveu em 2005), o trecho final é assim:

"Este livro de poemas - alguns poucos antigos, outros mais recentes, quase todos bem atuais e inéditos - é mais um jeito de dizer tudo o que diz a minha prosa. Não com menos intensidade ou inquietação, pois elas, como o amor, são o sal da vida."

O sal da vida.