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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

No teu deserto



Muitas vezes me tenho lembrado da Cláudia. Talvez menos do que seria normal, certamente menos do que ela merece. Mas, quando me lembro, vem-me a imagem desse riso ou da fugaz tristeza que às vezes lhe corria nos olhos e em que só estando atento se reparava. Muitas vezes me lembro dos nosso diálogos, durante as longas horas daqueles sofridos e gloriosos dias, interminavelmente aos saltos e solavancos dentro do jipe, navegando no vazio, num horizonte despido de qualquer vaidade e presunção. Dias de inocência, de iniciação, de descoberta, pelo Sahara adentro, pelas nossas almas adentro. Ou então lembro-me dos nossos diálogos ou gestos ao fim do dia, quando finalmente parávamos para acampar junto às dunas e não havia tempo a perder para montar a tenda e tirar as coisas necessárias para o jantar e para a noite enquanto havia luz. E então Cláudia desaparecia invariavelmente, para andar de mota ou conversar com os amigos, deixando-me a rogar pragas, na ingrata tarefa de esperar as espias da tenda no chão, para o que me faltava todo o jeito e vontade. Tínhamos combinado que ela se encarregaria da despensa e eu da cozinha, ela do acampamento e eu da condução. Tínhamos combinado tantas coisas! Só quando o deserto ficou para trás e Espanha apareceu à vista, quando navegávamos de volta para casa, atravessando o Estreito num barco que rasgava a escuridão líquida da noite e com o jipe destroçado arrumado no porão do navio, é que percebemos que todas as promessas estavam a chegar ao fim. O que nos trouxera até ali, entre amuos e tempestades de areia, entre riso e a alegria, fora a necessidade de um mínimo de ordem e disciplina: era preciso chegar lá e voltar. Mesmo a desordem necessita de uma ordem que lhe dê um sentido para que não seja apenas leviandade.


sábado, 17 de outubro de 2015

No teu deserto

Eu li e fiquei emocionada.



Páginas 115 e 116:

E tantos anos passaram desde então! A minha espada do mercado de Tamanrasset continua enferrujada, mas não mais do que já estava antes. Os anos passaram por mim, não por ela. Um dia em que tive um grande desgosto, deitei-me para dormir sem saber como seria a minha vida para diante. Quando acordei, olhei-me ao espelho e vi, espantado, que duas grandes rugas me tinham nascido nessa noite, junto aos olhos. Não estavam lá antes de eu me ter deitado na véspera, mas agora estavam, nítidas e verdadeiras, a menos que eu as injetasse de botox e alguém inventasse uma cirurgia contra os desgostos. E habituei-me às rugas, conformei-me com o tempo que passa. Às vezes, lá onde eu moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso. E às vezes, nesse terraço onde vejo e oiço as estrelas, onde escuto e aceito a ampulheta da minha vida, acendo um lume à maneira do Ali, com os galhos e ramos secos que fui colhendo durante o dia, ao passear pela paisagem. E, às vezes também, quando então percebo que tudo está em paz e faz sentido, falo com a tua estrela, sei que tu me guardas e vigias, que perdoas todos estes anos de silêncio, tão cruéis e irreparáveis ausências, tanto medo, Cláudia, de seguir a tua estrela, a tua luz, em vez de tantas ofuscantes ilusões.



terça-feira, 21 de abril de 2015

No teu deserto

Continuação deste post aqui. 



"- Em que pensas?

- Estava a pensar que há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto.

Tu não respondeste nada. Os teus olhos azuis, ainda estremunhados, o teu cabelo espalhado ao vento em todas as direcções, a tua cara de sono, de menina pequena, respondiam por ti - e, caramba, como tu ficavas bonita assim, sem precisares de dizer o que quer que fosse! Apenas a olhar em frente, como te tinha visto fazer em todos aqueles dias, no banco ao lado do meu no jipe. Tu falavas pouco e essa era uma das coisas de que eu gostava em ti. Quando tudo era bonito de mais ou duro de mais, tu ficavas calada a olhar silenciosamente. Falámos sobre isso uma vez, e eu disse-te que a vida me tinha ensinado que fácil era o ruído, as conversas sem sentido, a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. De nós, os dois, tu eras, sem dúvida alguma, a mais calma, a mais feliz tranquilamente. A mais atenta, a mais disponível para o vazio e o silêncio. Ah, não te rias, eu observei-te bem, sei do que falo!"

Que coisa linda (eu só falo isso, mas é verdade).


sábado, 23 de agosto de 2014

No teu deserto

Este blog está virando, praticamente, um blog de literatura portuguesa. Acho lindo. 



Eu li este livro no ano passado. É um livro curto e maravilhoso. E acredito que cada um de nós tem uma história parecida pra contar (é só trocar o deserto por outro local). Leiam e entendam o porquê disso. Aliás, é só aproveitar a Bienal do Livro e ir lá comprar. Miguel Sousa Tavares é filho de Sophia. Essa mesmo. 

Vejam que coisa:

Depois disso, voltei onze vezes ao Sahara. Nunca como contigo, nunca tão fundo, tão longe, tão perdidamente. Mas voltei, porque o deserto tornou-se quase um vício e a minha íntima religião, o único divino a que prestava contas e onde me reencontrava. E, de cada vez que voltei, pensei em ti e pensei como seria bom, incrivelmente bom, voltar contigo. Nessas alturas, como nas outras, eu repetia a mim mesmo: "Não há regresso. Há viagens sem regresso nem repetição".