terça-feira, 8 de março de 2016

Sempre minha poeta - Alice Ruiz S

dias e dias
espio palavras
persigo letras

com sorte
saco mais rápido 
pego todas distraídas

tiro as que riem
as que conversam


as outras
vadiam




domingo, 6 de março de 2016

Ziraldo e Flicts

No programa do Paraísos de Papel dessa semana falamos do nosso Ziraldo favorito. O meu é e sempre será FLICTS.

Aqui o vídeo.

E aqui um trechinho dessa coisa linda:

Tudo no mundo tem cor
tudo no mundo é
Azul
Cor-de-rosa
ou Furta-cor
é Vermelho ou
Amarelo
quase tudo tem seu tom
Roxo
Violeta ou Lilás
Mas
não existe no mundo
nada que seja Flicts
- nem a sua solidão 0
Flicts nunca teve par
nunca teve um lugarzinho
num espaço bicolor
(e tricolor muito menos
- pois três sempre foi demais)
Não
Não existe no mundo
nada que seja Flicts.


sexta-feira, 4 de março de 2016

Os dragões não conhecem o paraíso

Trecho do conto: Saudade de Audrey Hepburn (nova história embaçada)

Apertou o livro entre dedos subitamente frios, depois colocou-o no colo para ajoelhar-se e estender as mãos em direção ao fogo. Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias. Você indo embora. Eu indeciso entre beber um pouco mais ou procurar uma beata em plena devastação ou lavar copos bater sofás guardar discos mastigar algum verso adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar partir morrer dormir sonhar quem sabe. Você indo embora. Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca: mais frustração que ressaca, desgosto generalizado que aspirina alguma cura. Tocaria o telefone? Você indo embora, fotograma repetido. Na montagem, intercalar. Você indo embora você indo embora.



quinta-feira, 3 de março de 2016

Ana Cristina

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto


domingo, 28 de fevereiro de 2016

40 dias

Vencedor do Jabuti do ano passado. Um livro sensível... bonito demais.

"Vou começar a tricotar a minha nova felicidade, eu me dizia, e é bem provável que eu recupere a boa vontade para com Norinha e enxergue nos atos e nas palavras dela mais cortesia e amor, as únicas coisas indispensáveis para viver."


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Conclusão



Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda...
vida mais difícil.



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Veríssimo



No motel

Uma vez imaginei como seria uma quarentena num motel. O motel é fechado por alguma razão. Justamente naquela hora - fim de tarde, numa sexta-feira - em que, em todo o mundo, a frequência nos motéis e mais alta. Ninguém pode entrar e, pior, ninguém pode sair.

- Como, não posso sair? O que eu vou dizer para a minha mulher?

Quarenta minutos de atraso para chegar em casa a gente explica, quatro horas a gente explica... Mas quarenta dias?!

- E eu que disse pro meu marido que eu só ia fazer os pés?

As cenas de desespero se repetem. Todos recorrem ao celular.

- Alô, meu bem? Olha, estou numa reunião importantíssima. Ninguém sabe quando vai terminar. Faz o seguinte: deixa comida pra mim na geladeira. Bastante comida.

- Alô, querido? Você não sabe o que me aconteceu. A mão da pedicure escapou e ela me cortou um dedo. Não, eu ainda tenho o dedo, mas o corte foi fundo. Tive que vir ao hospital e... Não, não adianta você vir pra cá. Só vou ficar mais um pouquinho porque ainda estou meio fraca.

A recomendação é que todos fiquem em seus quartos. O motel fornecerá refeições, todo o equipamento dos quartos, como a cama giratória. A luz negra e a banheira com centrífuga continuarão funcionando normalmente e a programação do circuito interno de TV continuará a mesma. Mas aos poucos as pessoas começam a sair dos seus quartos e perambular pelos corredores. Há encontros inesperados.

- Epa, você por aqui?

Todos se visitam e comentam a decoração dos quartos.

- O nosso não tem essa poltrona com vibrador...

E surgem os boatos.

- Sabem que está na suite 12?

Com o tempo se estabelece uma rotina. Reúnem-se na suíte Afrodite, a maior de todas, para bater papo e olhar a televisão. Sentem falta de um baralho, mas quem leva baralho para um motel?

- Meu bem? Olha, o hospital quer que eu fique mais um pouco. Para evitar a gangrena. O quê? Você está ouvindo gemidos?

Ela faz um gesto para alguém baixar o volume da televisão.

- Aqui é um hospital, né, amor? Só se ouvem gemidos.

No vigésimo dia uma comissão procura a gerência do motel para fazer uma reclamação. A TV interna não tem outros filmes, não? Ninguém aguenta mais o filme das lésbicas com o encanador, ou da loira e o garanhão.

- Não tem A noviça rebelde?