"Todos estes livro, todas essas histórias, todas estas ideias, todas estas palavras não significariam nada - nada! - se não fosse uma coisa. Você sabe o quê?" Não adiantou eu fazer "não" com a cabeça, ele não estava me olhando. "Uma coisa que dá sentido a tudo, uma coisa sem a qual as palavras são apenas manchas no papel, todas as histórias não passam de encantações e todas as ideias nascem mortas. O que é? Me diga, o que é?" Eu disse que não sabia. Ele baixou a voz, dramaticamente, e respondeu sua própria pergunta. "O pecado." Certo", disse eu, como se tivesse estendido e concordava sem hesitação. "O pecado!", gritou ele. "O que nos condena é o que nos salva. Ou, pelo menos, salva a nossa literatura." Ele sentou na sua poltrona preferida, que tinha o couro rachado. Estava, agora, falando sozinho. "Muitas vezes você vai ler um livro e sente que ali falta alguma coisa. Ideias, ótimas. Redação, perfeita. Erudição. Estilo. Tudo. Mas falta uma noção de pecado. Você sente que o autor reuniu todos os ingredientes mas esqueceu o principal. Quem não tem a convicção do pecado nunca fará a grande literatura. Você concorda?" "Certo", respondi, cem por cento de acordo. Ele pareceu se dar conta da minha idade e fez um adendo. "É possível fazer manjar branco sem a essência de coco?" "Impossível", concordei. Manjar branco era uma das paixões dele. Anos mais tarde concluí que ele mantinha a biblioteca como um ex-alcoólatra mantém uma adega bem estocada, para ter sempre à mão a magnitude da renúncia. Ou um vertiginoso que escolhe viver à beira do abismo, como um desafio. Depois descobri que aquela era a sua vida clandestina. Uma das suas vidas clandestinas. Eu o entendi depressa demais.
Tudo de bom que já foi dito sobre Walt Whitman e sua obra "Folhas da Relva" eu concordo. Por isso o nome deste humilde bloguinho que fala sobre literatura é uma homenagem ao grande poeta que, como disse Borges: "toma e não diz a ninguém a infinita decisão de ser todos os homens e escrever um livro que seja todos".
quinta-feira, 31 de março de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
Contos de cães e maus lobos
Trecho de "Querido Monstro":
Porque nenhuma tristeza define obrigatoriamente o que podemos fazer no dia seguinte. No dia seguinte, ainda que guardemos a memória de cada dificuldade, podemos sempre optar por regressar à busca das ideias felizes.
Eu comecei pelos poemas de amor. Foi o melhor que me poderia acontecer.
segunda-feira, 28 de março de 2016
Toni Morrison e o Clube do Livro da Oprah
Acho que minha autora contemporânea favorita é a Toni Morrison e este, sem dúvida, é um dos melhores livros dela.
E viva o Clube do Livro da Oprah!
E viva o Clube do Livro da Oprah!
quarta-feira, 23 de março de 2016
Nelson Rodrigues
Trecho de "Ser para sempre fiel e morrer, um dia, com o ser amado". O Globo - 2 de janeiro de 1968.
Chamava-se Meireles. Meireles ou Marcondes? Não, não. Era Meireles mesmo. Pois o Meireles tinha uma namorada em cada esquina, noivas e esposas por toda a cidades. Muitos já insinuavam o vaticínio: - "Qualquer dia dão-lhe um tiro!" E o Meireles foi, talvez, o primeiro sujeito que ouvi falar em "amor livre". Certa vez houve uma festa na vizinhança; era batizado ou aniversário, não me lembro mais.
E o Meireles (ou seria Marcondes?), o Meireles estava lá e tomou conta da festa. Cercado de mocinhas, de senhoras, contou a própria vida. Confirmou que tinha uma paixão, ou várias, em cada bairro. Alguém lhe perguntou se não tinha vergonha. Abriu o riso: "Vergonha teria de ser homem de uma mulher só!" Naquele tempo as mulheres usavam leque (o movimento lépido ou lento do leque era de uma delicada voluptuosidade). E as presentes abanavam-se com mais angústia.
(Depois se soube que o Meireles tinha não só namoradas, mas filhos por toda a cidade). No fundo, no fundo, a audiência estava fascinada com esse descaro monumental. Ao sair, ainda disse: - "Qualquer um pode gostar de quinhentas ao mesmo tempo." Eu estava no aniversário, comendo mãe-benta. O Meireles foi, talvez, o primeiro cínico que conheci da vida real.
Depois que o Meireles saiu, um vizinho, já senhor, de olho grande e triste, disse apenas: - "É um canalha!" Aí está um ponto de exclamação que realmente o velho não usou. Dissera "canalha" sem ira, um "canalha" que saiu apenas informativo. Quanto a mim, nos meus sete anos, exatamente sete anos, tive uma náusea adulta.
segunda-feira, 21 de março de 2016
O título de livro mais criativo
Este é o tema do vídeo de ontem.
A gente tem tantos... mas acabou escolhendo um só cada uma.
A gente tem tantos... mas acabou escolhendo um só cada uma.
sábado, 19 de março de 2016
Comédias da Vida Privada
Dia da Secretária. Este também teve uma origem curiosa. Segundo algumas versões, ele começou no Brasil, quando uma mulher descobriu na agenda do marido a seguinte inscrição: "Flores e bombons para a Bete. Mandar entregar no Motel".
- Quem é essa Bete? - perguntou a mulher com fingido desinteresse, sacudindo o marido pelo pescoço.
- Ora, quem é a Bete. É a Dona Elizabete, minha secretária. Você conhece ela!
- Conheço e sei que o aniversário dela já passou. Por que as flores e os bombons?
- Onde é que você viu isso?
- Na sua agenda.
- E você viu a data na agenda?
- O que é que tem a data?
- É o Dia da Secretária.
- Nunca ouvi falar.
- Foi recém-inventado - disse o marido, que tinha inventado naquele minuto.
- E o motel? Por que entregar no motel?
- A dona Elizabete está morando no motel, provisoriamente, até que terminem os reparos na casa dela.
- O que houve com a casa dela?
- Você não soube? Foi arrasada por uma manada de elefantes.
- Você espera que eu acredite nisso?!
- Meu bem, eu inventaria uma história destas?
- É, acho que não. Desculpe, querido.
- Está desculpada. Agora largue o meu pescoço.
terça-feira, 15 de março de 2016
Amós Oz
Trecho da palestra "Entre o certo e o certo" de 2002:
"Quando cunhei a expressão 'Faça a paz, não amor', eu não estava, é óbvio, pregando contra o amor. Mas sim, em certa medida, tentando acabar com a confusão amplamente difundida entre paz e amor e fraternidade e compaixão e perdão e concessão e assim por diante, que faz as pessoas pensarem que se elas apenas largassem suas armas, o mundo no mesmo instante se tornaria um lugar maravilhoso, adorável. Pessoalmente, acredito que o amor é um artigo raro. Creio que um ser humano, pelo menos segundo minha experiência, pode amar dez pessoas. Se for muito generoso poderá amar vinte pessoas. Um ser humano sortudo, muito felizardo pode até mesmo ser amado por dez pessoas. Se for extraordinariamente sortudo, pode ser amado por vinte pessoas. Se alguém me disser que ama a América Latina, ou que ama o Terceiro Mundo, ou que ama a humanidade, isso é muito vago para ser significativo. Como lamentava uma canção popular muitos anos atrás, 'Não há amor suficiente no mundo'. Não creio que o amor seja a virtude com a qual serão resolvidos os problemas internacionais. Precisamos de outras virtudes. Carecemos de senso de justiça, mas também de senso comum, necessitamos de imaginação, de uma profunda habilidade de imaginar o outro, às vezes nos pondo no lugar dele."
Obs - acho que o livro tem alguns problemas de tradução. Mas vale.
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