Tudo de bom que já foi dito sobre Walt Whitman e sua obra "Folhas da Relva" eu concordo. Por isso o nome deste humilde bloguinho que fala sobre literatura é uma homenagem ao grande poeta que, como disse Borges: "toma e não diz a ninguém a infinita decisão de ser todos os homens e escrever um livro que seja todos".
terça-feira, 16 de junho de 2015
Poesia Exploratória
Quem alisa os meus cabelos?
Quem me tira o paletó?
Quem, à noite, antes do sono,
acarinha meu corpo cansado?
Quem cuida de minha roupa?
Quem me vê sempre nos sonhos?
Quem pensa que sou o rei desta pobre criação?
Quem nunca se aborrece de ouvir a minha voz?
Quem paga o meu cinema, seja de dia ou de noite?
Quem calça os meus sapatos e acha meus pés tão lindos?
Eu mesmo.
2 de dezembro de 1945.
sábado, 13 de junho de 2015
Um pouquinho de Nelson Rodrigues
Só pra gente ver como ele escrevia bem. Trecho inicial de "Nelsinho". Publicado em "O Globo". Primeiro de agosto de 1968.
1. Depois do último carnaval, passei uma semana escrevendo sobre o mesmo assunto. Meus amigos me chamam de "Flor de Obsessão". Ainda ontem, recebo uma carta de Roma. E lá vinha escrito, no envelope, "Nelson Rodrigues" e, por baixo do nome, a "Flor de Obsessão", (Há, em tal metáfora, como que um odor de folclore havaiano. Mas isso é outra conversa.) Meus amigos não exageram. Eu sou assim, e digo mais: convivo muito bem com as minhas idéias fixas.
2. E a minha fixação, nos quatro dias de carnaval, foi a nudez unânime. Imaginem uma cidade que se despia, e com a agravante - não se despia para o namorado, noivo, marido ou lá o que fosse. Não. Um, apenas um, seria muito pouco para o seu impudor. (Hoje, a própria palavra "pudor" é tão antiga e irreal como, como... Vejamos uma palavra bem fora de moda. Já sei: - "supimpa". Aí está: "supimpa".) Mas as mulheres se despiam para milhões de telespectadores. Milhões.
3. Não saí de casa. Fundei a minha solidão diante do vídeo. E, de repente, aparece uma conhecida minha, aliás, uma menina linda, linda. Um mês antes perdera o marido, um jovem aviador, moreno como um galã de neo-realismo italiano. O jato batera numa montanha e não restara do ser amado, para a viúva, um relógio, uma aliança, uma obturação. E, um mês depois, ela pôs um sarongue em cima da eterna saudade e levou a viuvez para sambar.
4. Por uma fúnebre coincidência, as câmeras não tiraram o olho da viúva. Ela apareceu duzentas vezes em cada dia. O rosto era lindo. Todavia, ninguém estava lá para promover rostos. E a televisão só mostrava o umbigo, vejam vocês, o umbigo da menina. Minto. Mostrava também uma pequena cicatriz de apendicite. E o umbigo e a cicatriz, ampliados, tinham uma dimensão miguelangesca.
terça-feira, 9 de junho de 2015
A desumanização
O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal.
A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.
Pintávamos os móveis de flores escuras. Demorávamos muito e a casa cheirava a tintas más, baratas, que demoravam a secar. O meu pai impedia-me de chorar pelo ofício da racionalidade.
Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.
domingo, 7 de junho de 2015
Grande Sertão
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei, -- "Amanhã eu tiro..." - falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então, saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido roído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo.... O cabo - por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí está: Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...
Somemos, não ache que religião afraca. Senhor, ache o contrário. Visível que, aqueles outros tempos eu pintava - cré que o caroá levanta a flor. Eh, bom meu pasto... Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.
Se há alguma livro em língua portuguesa mais mais do que esse, alguém me avisa.
terça-feira, 2 de junho de 2015
Decididamente
De Vinícius e Edu Lobo.
Decididamente, eu não sou gente
Eu sou um ente incompetente, mal acabado
Eu, infelizmente, não consigo sequer ser um mendigo
Dá tudo errado
Deus, quando me fez, devia estar muito invocado
Ganhou um campeonato de fazer nego sofrer
Urubu pousou na minha sorte
Eu nasci pra boi de corte
Deu cupim no meu viver
Sábado passado, quando eu vinha
Uma zinha da "pontinha"
Fez uma linda carinha para mim
Eu, aí, peguei minha pessoa
E fui andando para a boa
Na esperança de um domingo menos ruim
Pois, amigo, que é que você acha
Vou e levo uma "bolacha"
De um frajola que eu não sei de onde surgiu
E que, além de tudo, não contente
Me mandou apenasmente
Quando você está mesmo sem sorte
Nem a vida e nem a morte
Querem nada de saber de você, não
Você pode estar morto, defunto
E vêm os vermes todos juntos
Lhe pedir pra não seguir a refeição
Chega o dia e a vida está tão chata
Que você pega e se mata
Dá um tiro que parece de canhão
Mas a sua sorte é tão ingrata que ele sai pela culatra
Com licença da expressão.
Decididamente, eu não sou gente
Eu sou um ente incompetente, mal acabado
Eu, infelizmente, não consigo sequer ser um mendigo
Dá tudo errado
Deus, quando me fez, devia estar muito invocado
Ganhou um campeonato de fazer nego sofrer
Urubu pousou na minha sorte
Eu nasci pra boi de corte
Deu cupim no meu viver
Sábado passado, quando eu vinha
Uma zinha da "pontinha"
Fez uma linda carinha para mim
Eu, aí, peguei minha pessoa
E fui andando para a boa
Na esperança de um domingo menos ruim
Pois, amigo, que é que você acha
Vou e levo uma "bolacha"
De um frajola que eu não sei de onde surgiu
E que, além de tudo, não contente
Me mandou apenasmente
Quando você está mesmo sem sorte
Nem a vida e nem a morte
Querem nada de saber de você, não
Você pode estar morto, defunto
E vêm os vermes todos juntos
Lhe pedir pra não seguir a refeição
Chega o dia e a vida está tão chata
Que você pega e se mata
Dá um tiro que parece de canhão
Mas a sua sorte é tão ingrata que ele sai pela culatra
Com licença da expressão.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Poema do Caio
não sei bem se era pedra
mas no meio do caminho
houve um cansaço, uma queda
um vacilo, um desabraço
um suspiro ou um tropeço
um bagaço, algum cochilo
qualquer coisa tão pequena
nós nem notamos que havia
não sei direito o que houve
ou que não houve, quem sabe
sei que não tinha preparo
em nós, nas coisas, em nada
sei que a gente não sabia
dos meandros do caminho
dos depois que vinham vindo
para amargar nossas bocas
deve ter tido um começo
espaço, cama, cozinha
quem sabe uma mesa posta
talvez um rádio ligado
não lembro daquela hora
minha memória dormiu
não localizo esse dia
tua memória, apagou
depois de todo esse tempo
sobrou um corpo a teu lado
e um arremedo de espanto
restou um corpo a meu lado
e esta ressaca de encanto
26 de novembro de 1980.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
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