sábado, 13 de setembro de 2008

F. Pessoa



Um pouquinho mais:

"Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco."

Livro do Desassossego

Obs - foto do site www.mundocultural.com.br

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mais dele



Não resisti:

"Soa estranho, esta manhã,
tudo o que sempre foi meu, como pode?
Como pode que esse som lá fora,
os sons da vida, a voz de todo dia,
pareça ficção científica?

Como pode que esta palavra,
que já vi mil vezes e mil vezes disse,
não signifique mais nada,
a não ser que o dia, a noite, a madrugada,
a não ser que tudo não é nada disso?

Pode que eu já não seja mais o mesmo.
Pode a luz, pode ser, pode céu e pode quanto.
Pode tudo o que puder poder.
Só não pode ser tanto."

Poema "como pode?" de Paulo Leminski, do livro "Distraídos Venceremos". A foto é da capa do livro "Envie meu dicionário". É isso.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Elizabeth Bishop (1911-1979)


Há vários anos fui com um grande amigo assistir a peça "Um porto para Elizabeth Bishop". Era um monólogo com a Regina Braga. Na ocasião não tinha idéia quem era ela e só lá que entendi que era uma autora americana que viveu no Brasil durante anos com a companheira. O que me marcou da peça foi exatamente o texto da autora - Marta Góes.

Falo sempre de Elizabeth Bishop nas minhas aulas e em algum outro post mais pra frente falarei com mais detalhes sobre sua poesia.

Em 2005 achei o livro sobre a peça na Livraria Cultura e o trecho que mais me recordo (e que agora leio no livro, é claro) é a parte final, anos depois da morte da companheira, que Elizabeth (por meio da Marta Góes) fala o seguinte:


"Faz dez anos outro dia. É claro que em dez anos a dor que você guardava na primeira prateleira e pulava no seu peito toda manhã vai se acomodando numa prateleira mais alta, e depois numa mais alta ainda, e depois, num canto que você não alcança todo dia. Mas você sabe que ela está lá, guardada para sempre, junto de muitas coisas que fazem parte da sua vida."


Não é uma ótima definição para uma série de coisas?


Obs - a foto é do site www.poets.org

sábado, 6 de setembro de 2008

Shakespeare (1564-1616)


Quem sou eu para ficar discutindo Shakespeare, mas recebi há algum tempo um trecho do "measure for measure":

"Our doubts are traitors
And make us lose the good we oft might win
By fearing to attempt"


Que é algo mais ou menos assim: "nossas dúvidas são as nossas traidoras, e fazem-nos perder as coisas boas que poderíamos frequentemente ganhar só pelo medo de tentar".

Essa tentativa em português é minha. Dúvidas sempre.


obs - a foto é do site www.abc.net.au

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O crítico - Harold Bloom


Harold Bloom talvez seja hoje o crítico literário mais importante do mundo. Eu adoro "Como e por que ler", escrito em 1999/2000. No prefácio e no prólogo ele tenta nos explicar porque lemos. E as razões são ótimas (e corretas).

Um pequento trecho:

"Ler nos conduz à alteridade, seja à nossa própria ou à de nossos amigos, presentes ou futuros. Literatura de ficção é alteridade e, portanto, alivia a solidão. Lemos não apenas porque, na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas, também, porque amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa".

Obs - a foto é do site da editora objetiva (que publica os livros dele no Brasil).

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Clarice (1920-1977)


Não faltam trabalhos, dissertações ou teses sobre ela (não é Isabel?), então não serei eu que gastarei mais falando e/ou explicando. Aqui vai somente um pedaço de um texto publicado em 07 de outubro de 1967 no Jornal do Brasil (tudo publicado no maravilhoso - "A descoberta do mundo"):

MEDO DO DESCONHECIDO: Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade.


obs: A foto é do site www.releituras.com.br

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Poe - hoje começa


Quando tenho que preparar aulas específicas sobre um autor fico muito feliz. Tento mergulhar na vida do autor (de novo), reler as obras, aquela coisa toda.

Essa semana é ele: Edgar Allan Poe. E, uso as palavras de Paulo Leminski para os elogios: "toda a literatura dita 'fantástica', Kafka, Borges, começa com ele. Poe decretou a liberdade da imaginação e da fantasia criadora. Não pode haver título nem glória maior."

E vamos ao corvo....